Em entrevista exclusiva ao hugogloss.com, Lorena Comparato revelou as cenas mais difíceis de gravar no novo filme de Elize Matsunaga, “Elize: Sombras de Uma Mulher”. A atriz também detalhou as preparações intensas e um conselho que recebeu da irmã, Bianca Comparato.
Um dos casos criminais mais comentados do Brasil ganha uma nova abordagem em “Elize: Sombras de Uma Mulher”, produção que revisita a trajetória de Elize Matsunaga, condenada pelo assassinato e esquartejamento do marido. O filme chega à Netflix nesta quarta-feira (22). Em entrevista exclusiva ao hugogloss.com, a protagonista Lorena Comparato revelou as cenas mais difíceis que precisou gravar e a preparação intensa para o papel. A atriz também contou o interesse que teve pelo projeto e como seu acessos a conteúdos confidenciais do processo agregaram ao longa.
Com direção de Felipe Vellas e roteiro de Raphael Montes e Mariana Torres, a trama acompanha a jornada difícil de Elize (Comparato), que saiu do Paraná rumo a São Paulo em busca de uma vida melhor, após ser abusada pelo próprio padrasto. Na cidade grande, porém, ela acaba fazendo dinheiro através de um aplicativo de encontros, onde conhece Marcos Matsunaga (Henrique Kimura), empresário e herdeiro da Yoki.
Os dois se envolvem, apesar do casamento de Marcos, e se casam pouco depois. O que parecia ser uma relação amorosa e excêntrica, como definido pela própria Lorena, não passa de uma fachada construída ao longo dos anos para esconder os conflitos e segredos que levam o casal ao limite.
Assim como outras mídias já lançadas, “Elize: Sombras de Uma Mulher” aborda o crime brutal, mas também explora a complexidade da protagonista, incluindo as circunstâncias, os dilemas e as escolhas feitas por ela que antecederam o assassinato de Marcos.
Assista ao trailer:
À jornalista Thamyris Couto, Lorena contou como foi o processo até conseguir o papel. “Eu fui convidada para fazer teste para a Elize. Foi um processo muito intenso de teste, já com toda a direção. E quando eu passei… É uma alegria na vida de qualquer atriz, você fazer uma personagem com tantas camadas, tão complexa quanto essa”, afirmou.
A felicidade logo foi substituída pela preparação e gravação intensa, que seguiram por pouco mais de um mês. “Foram 40 dias de ensaio para 40 dias de filmagem. Eu sou do Rio de Janeiro, me mudei para São Paulo, então eu fiquei meses morando [na cidade]. Foi um mergulho muito profundo. Eu tive ao meu lado pessoas incríveis para me acompanhar nesse processo de preparação. Eu tinha uma preparadora do meu lado, sempre, que era a Maria Silvia. Ela é preparadora, fonoaudióloga e preparadora de intimidade”, explicou a artista.
Apesar da diferença regional, ela admitiu que incorporar o sotaque paulista não foi uma dificuldade. “Eu sou uma atriz que faço muito sotaque nas minhas personagens, e eu sou filha de fonoaudióloga. Minha mãe, Leila Mendes, é minha preparadora muitas vezes, e eu gosto muito de sotaque. Eu acho que através da voz, do corpo, você consegue chegar na personagem. Isso é um trabalho que eu faço sempre, é muito unificado. Então, não tinha como eu fazer a Elize e não pensar no sotaque. E foi um estudo muito grande, porque essa personagem vem do Paraná muito cedo, mas vai a São Paulo, então é tudo junto”, detalhou.

Lorena ainda disse que teve acesso aos materiais do caso para adentrar à história. “E a gente fez muito trabalho de campo, muita pesquisa. Eu, particularmente, gostei muito de mergulhar nos artigos, nos vídeos, nas reportagens. Como foi um crime de 2012, eu tive acesso às filmagens, coisa que, às vezes, você faz baseado numa história que aconteceu muitos anos atrás e só existia foto. Eu [também] tive acesso aos laudos do processo. Pra mim, foi muito importante ter todas essas camadas, todos esses pontos de vista nessa história pra conseguir filtrar, pegar no roteiro do Raphael Montes e da Mariana Torres e poder construir a minha personagem, Elize”, detalhou.
Tendo em vista outras produções que já estão disponíveis, a atriz pediu para o público se ater na ficção contada, acrescentando que terão trechos da história conhecidos, mas com novas maneiras de abordá-los. “Olha, eu acho que o ineditismo desse ponto de vista é real, porque esse é um filme de ficção. Então, os diálogos que estão ali, por exemplo, são do Raphael Montes e da Mariana Torres. O que pode surpreender é a escolha de como contar a história por esses roteiristas. Acho que a maioria ali é ficção, mas é baseado em fatos”, observou.
“Eu sei que vai ter muita comparação com coisas que estão disponíveis para o grande público, mas eu acho que o que eu tive acesso foi o material do documentário. Então, eu acho que o público viu a mesma coisa que eu vi, só que talvez eu tenha visto um pouco mais. Um recorte específico que tenha de um depoimento ou outro, eu talvez tenha visto o depoimento todo”, continuou.
Comparato também comentou a reflexão que espera acontecer entre os telespectadores após assistirem à “Elize”: “Eu espero que gere bastante curiosidade nas pessoas, que eles possam assistir ao documentário também, porque como eu me baseei nele, vale muito a pena. Ver o de ficção e ver o documentário. E ao mesmo tempo, pra mim, o que eu espero que aconteça é: eu acho que esse filme é uma oportunidade pra todo mundo refletir sobre a humanidade, sobre as nossas escolhas”.

Tendo em vista a densidade da história, Lorena revelou quais cenas foram as mais difíceis de gravar e que a abalaram emocionalmente. “Nossa, fiquei até um pouco arrepiada. Eu acho que foi um filme muito desafiador. Pra mim, a mais difícil, sem comparação, é [gravar] o crime. É muito complexo. Uma pessoa que não tem nenhuma vivência disso e, realmente, eu não tenho, fazer uma cena daquelas… Que eu acho que é uma cena difícil de se fazer”, confessou.
“Mas ali eu tive muitas dinâmicas complexas também, porque eles eram um casal muito excêntrico. Tinha a cena da cobra, tem a interação com bebê, que eu sempre acho muito delicado e respeitoso. Teve a cena na chuva. A gente filmou no inverno de São Paulo. Então a cena da piscina, por exemplo, estava 5ºC quando a gente gravou. Foram muitos desafios para a gente conseguir contar essa história dessa forma que a gente contou. Mas eu espero que as pessoas assistam e reflitam sobre”, continuou a estrela.
Justamente por se tratar de um longa inspirado na realidade, Lorena precisou se atentar em detalhes relacionados à sua vida pessoal. Mas, além dela, sua irmã, a atriz Bianca Comparato, também lhe deu conselhos de como passar por esse período. Como se sabe, ela interpretou Ana Carolina Jatobá na série “Tremembé”, do Amazon Prime Video.
“O grande conselho da Bianca era pra eu me cuidar. Ela ficou muito preocupada com o meu bem-estar. Nós somos muito amigas, eu, Bianca e Fabiana. Somos três irmãs. Ela estava ali sempre me amparando, mas muito nesse lugar do pessoal, de como eu estava. Porque eu sinto que ela sabia o peso que foi fazer [uma personagem assim], e contar uma história tão bárbara como a dessas mulheres. Então, a maior preocupação e conselho dela era isso: tentar dormir bem, comer bem, ter uma estrutura de saúde para eu aguentar o rojão do que é contar uma história tão densa quanto essa”, relatou.
Mesmo com a preocupação e cuidado extra que a cercaram, Lorena celebrou ter conquistado a primeira protagonista de sua carreira. “Eu sempre sonhei em estar na Netflix, em ser protagonista. Eu acho que é um sonho de muitas atrizes e eu conquistei isso agora. Realmente, é inexplicável a sensação disso. Ao mesmo tempo, eu sei que eu tenho muita responsabilidade, muito respeito por estar fazendo um filme de true crime, de um crime bárbaro que chocou o Brasil todo. Então, [são] muitos sentimentos ao mesmo tempo”, confessou.

A atriz também refletiu sobre comentários negativos que produções do gênero recebem, incluindo acusações de romantizar os crimes e seus autores. “Eu vim muito do teatro. O [escritor brasileiro] Nelson Rodrigues fala muito que a gente coloca os horrores da humanidade no palco para a gente expurgar isso da gente. Eu já estou em uma idade que reflito muito de existir mocinhas e bandido. Então, eu acho que existe uma dualidade, uma camada, uma complexidade em tudo na vida”, ponderou.
“Pra mim, como atriz, eu acho que não me cabe julgar. Se não, eu não conseguiria fazer nenhum personagem, porque eu ia estar sempre no julgamento do que é aquele personagem, do porquê ele faz aquelas escolhas. Mas eu acredito que fazendo esses personagens que têm escolhas tão complexas possa existir uma oportunidade de gerar debates na sociedade de como ela pode melhorar. As tragédias gregas eram feitas justamente para a população ver esses horrores e não replicar, ter medo de replicar”, exemplificou Comparato.
Por fim, ela se abriu sobre as expectativas altas em relação ao filme e como ele pode impactar quem o assistir. “E eu espero que as pessoas vejam um filme como esse e reflitam muito sobre crime, sobre gênero, sobre classe social, sobre desarmamento. São temas muito importantes para a gente refletir, e essas dinâmicas extremamente complexas de casais que, infelizmente, podem acabar em crime. Então que a gente, como sociedade, possa melhorar para isso não acontecer”, concluiu.
Confira a entrevista completa:
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