Projeto Uma Só Globo acelerou a substituição dos contratos vitalícios pelo modelo por obra e concentrou os exclusivos em um grupo reduzido de artistas
A Globo passou por uma das maiores transformações de sua história nos bastidores da dramaturgia. Se nos anos 1990, auge das novelas e da produção de entretenimento da emissora, o canal mantinha um banco de cerca de 1.500 talentos sob contrato, de acordo com fontes da coluna, hoje esse número gira em torno de 70 artistas com vínculo de exclusividade.
A mudança ganhou força a partir de 2021, com a implantação do projeto Uma Só Globo, que unificou as operações da empresa e acelerou uma profunda revisão dos contratos fixos. O modelo que predominou durante décadas — em que atores permaneciam anos vinculados à emissora, mesmo entre um trabalho e outro — deu lugar ao chamado contrato por obra.
Na prática, a maioria dos artistas agora é contratada apenas pelo período de gravação de uma novela, série ou programa. Terminado o projeto, o vínculo se encerra e o profissional fica livre para negociar com outras plataformas e produtoras.
Essa reformulação também explica por que um pequeno grupo de atores aparece com tanta frequência na programação. Como o número de exclusivos diminuiu drasticamente, artistas como Chay Suede, Cauã Reymond e Agatha Moreira acabam emendando um trabalho no outro. Ao mesmo tempo, por manterem contratos de longo prazo com a emissora, também possuem menos liberdade para recusar projetos quando são escalados.
Nos anos 1990, a realidade era completamente diferente. A Globo reunia um elenco permanente formado por centenas de grandes nomes, entre eles Antônio Fagundes, Glória Pires, Tony Ramos, Adriana Esteves e Susana Vieira. Era comum que atores permanecessem anos recebendo salário fixo, independentemente de estarem ou não no ar.
Hoje, esse privilégio ficou restrito a um grupo bastante seleto. Entre os artistas que continuam com acordos de longo prazo — alguns deles considerados praticamente vitalícios — estão nomes como Tony Ramos, Susana Vieira, Suely Franco e Ary Fontoura, símbolos de uma política de retenção que praticamente deixou de existir.
A estratégia permitiu à Globo reduzir custos e tornar sua operação mais flexível, acompanhando uma tendência adotada pelo mercado audiovisual. Em contrapartida, o antigo banco de elenco, que durante décadas foi uma das principais marcas da emissora, tornou-se uma exceção: o modelo de contratos fixos deu lugar a uma estrutura muito mais enxuta e baseada na demanda de cada produção.

