Entenda o tamanho da crise entre UEFA e FIFA e seus impactos no futebol mundial

Entenda o tamanho da crise entre UEFA e FIFA e seus impactos no futebol mundial


Boicote aprovado pelas 55 federações europeias coloca em risco torneios femininos, categorias de base e futuras competições da Fifa, além de ampliar a disputa política e comercial entre as entidades

A relação entre Uefa e Fifa atravessa um dos momentos mais delicados dos últimos anos. A decisão unânime das 55 federações filiadas à entidade europeia de boicotar as competições organizadas pela Fifa elevou o nível da disputa institucional e pode produzir efeitos diretos no calendário internacional, atingindo torneios femininos, categorias de base e até futuras edições da Copa do Mundo.

O estopim da crise foi o projeto apresentado pela Fifa para criar a Fifa Forward Enterprise (FFE), subsidiária que passaria a administrar os direitos comerciais e operacionais das principais competições da entidade com participação de investidores privados. A proposta foi defendida pelo presidente Gianni Infantino como uma forma de ampliar os recursos destinados ao desenvolvimento do futebol, mas recebeu rejeição imediata da Uefa por conta dos impactos da possível intervenção de instituições privadas no futebol.

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Gianni Infantino, presidente da Fifa. Foto: Reprodução

Gianni Infantino, presidente da FifaGianni Infantino, presidente da Fifa. Foto: Reprodução


A entidade europeia argumenta que a medida representa uma ameaça à governança do esporte e aprovou, por unanimidade, o boicote às competições da Fifa enquanto o projeto permanecer em discussão.

Na esteira da crise, Donald Trump, presidente dos EUA, e conhecido aliado e alvo de polêmica durante a Copa do Mundo de 2026, indiciou o irmão de seu genro, o empresário Joshua Kushner, responsável pela empresa Thrive Eternal, como o responsável por distribuir as ações da empresa. Tal relação é um dos motivos da rejeição do projeto por parte dos europeus.

Quais torneios podem ser afetados?

Os primeiros impactos podem aparecer ainda nesta temporada. Entre os dias 5 e 27 de setembro, está prevista a disputa da Copa do Mundo Feminina Sub-20, na Polônia. O torneio conta com seis seleções europeias classificadas, que podem ficar fora caso o impasse não seja resolvido.

Na sequência, em outubro, estão programados os playoffs europeus que definirão vagas para a Copa do Mundo Feminina de 2027, que será disputada no Brasil. Inglaterra, Irlanda do Norte, Escócia e País de Gales estão entre as seleções envolvidas na fase decisiva das Eliminatórias.

Ainda em outubro, a Copa do Mundo masculina Sub-17 também entra na lista de competições potencialmente impactadas, já que reúne cinco representantes da Europa.

Caso o boicote seja mantido por um período mais longo, futuras edições das competições organizadas pela Fifa também poderão sofrer mudanças significativas.

Impacto esportivo vai além da ausência de seleções

A eventual retirada das equipes europeias altera diretamente o nível técnico das competições internacionais. As seleções filiadas à Uefa concentram parte dos principais campeões mundiais e figuram regularmente entre as primeiras colocadas do ranking da Fifa. Sem essas equipes, torneios como a Copa do Mundo perderiam parte de seus confrontos mais tradicionais e do equilíbrio competitivo.

Além da disputa principal, o boicote também afeta as competições de base e femininas, comprometendo o planejamento esportivo previsto para os próximos anos.

Crise também ameaça receitas da Fifa

Os reflexos não se limitam ao campo. A ausência das seleções europeias tende a reduzir o valor comercial das competições organizadas pela Fifa. Direitos de transmissão, contratos de patrocínio e acordos de marketing podem sofrer desvalorização diante da perda de audiência em um dos principais mercados do futebol.

Esse cenário também pode afetar a própria Fifa Forward Enterprise, cuja proposta depende do interesse de investidores privados. A expectativa da entidade é avaliar a nova empresa em cerca de US$ 20 bilhões (R$ 102,3 bilhões) e vender uma participação minoritária equivalente a US$ 4,2 bilhões (R$ 21,5 bilhões).

Segundo a Fifa, os recursos obtidos seriam reinvestidos no desenvolvimento do futebol. Atualmente, cada federação filiada recebe aproximadamente R$ 41 milhões por ciclo. A entidade projeta elevar esse valor para R$ 102 milhões até a Copa do Mundo de 2030, R$ 112,5 milhões até 2034 e R$ 123 milhões até 2038.

Caso o projeto perca força com a oposição da Uefa, a distribuição desses recursos também poderá ser comprometida.

A tensão já vinha crescendo

O desgaste entre as duas entidades não começou com a discussão sobre a FFE. Durante a última Copa do Mundo, Uefa e Fifa acumularam divergências em diferentes episódios. O presidente da Uefa, Aleksander Ceferin, não compareceu à final entre Espanha e Argentina após uma série de desentendimentos envolvendo questões disciplinares, arbitragem e operação do torneio.

Outro momento de atrito ocorreu quando a Fifa suspendeu, em caráter probatório, a punição aplicada ao atacante Folarin Balogun, dos Estados Unidos, permitindo que ele disputasse as oitavas de final mesmo após uma expulsão na fase anterior. A decisão levou a Uefa a afirmar que a entidade havia “cruzado uma linha vermelha”. A suspensão do cartão veio após um telefone do presidente dos EUA, Donald Trump, a Gianni Infantino, preisdente da FIFA.

Em nota divulgada na ocasião, a entidade europeia também declarou: “Quando a segurança de que as regras serão cumpridas deixa de ser garantida por aqueles que deveriam protegê-las, a integridade do jogo fica em risco e a credibilidade da competição é comprometida. Da mesma forma, essa decisão cria um precedente durante o torneio em andamento, já que situações semelhantes passarão a exigir tratamento igual, em prejuízo da própria competição.”

Outro episódio envolveu o árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, impedido de atuar na Copa do Mundo após ter a entrada negada nos Estados Unidos. Posteriormente, a Uefa escalou o árbitro para apitar a Supercopa da Europa, em um gesto de apoio.

Com o boicote aprovado pelas 55 federações nacionais, a disputa entre Uefa e Fifa amplia seus efeitos para além dos bastidores administrativos e passa a colocar em xeque o calendário internacional, a participação de seleções em competições oficiais e o modelo de financiamento do futebol mundial.

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