Emissora esbarra em atores comprometidos com streamings e valores dos contratos por obra para fechar duas de suas próximas produções
A Globo está enfrentando um problema que começa a pesar cada vez mais nos bastidores de sua dramaturgia: encontrar atores disponíveis — e dispostos — a encarar uma novela inteira. A dificuldade já interfere na montagem dos elencos de duas produções importantes de 2027: “Dias de Glória”, próxima trama das seis depois de “Lá na Minha Terra”, e a novela de Daniel Ortiz que substituirá “Por Você” às sete.
Nos dois casos, a escalação virou uma espécie de quebra-cabeça. Não por falta de atores no mercado, mas justamente pela transformação desse mercado nos últimos anos. A Globo reduziu drasticamente seu banco de elenco, passou a trabalhar majoritariamente com contratos por obra e agora precisa disputar profissionais com streamings, produtoras, cinema e outras emissoras.
A coluna revelou recentemente o tamanho dessa mudança. Nos anos 1990, a Globo chegou a manter cerca de 1.500 talentos sob contrato. Atualmente, o grupo de artistas com vínculos de exclusividade gira em torno de apenas 70 nomes.
Durante décadas, a emissora tinha à disposição um verdadeiro time de atores. Quando uma novela começava a ser montada, autores e diretores podiam recorrer a uma extensa relação de profissionais que já recebiam salário da casa. Hoje, cada produção praticamente precisa construir seu elenco do zero.
O modelo por obra trouxe economia para a Globo, mas também deu aos atores uma liberdade que eles não tinham quando estavam presos a longos contratos de exclusividade. Entre uma novela de sete ou oito meses e uma série de streaming com poucas semanas de gravação, muitos profissionais passaram a considerar a segunda alternativa mais atraente.
Há ainda a questão financeira. Com os orçamentos mais apertados, nem sempre a Globo consegue chegar aos valores pedidos por atores mais conhecidos. O problema não é exatamente novo. Nos últimos anos, escalações chegaram a ser desfeitas por falta de acordo financeiro, e produções passaram a recorrer mais a atores jovens e nomes menos conhecidos para conseguir fechar a conta do elenco.
Esse novo cenário está sendo sentido agora por “Dias de Glória”, escrita por Carla Faour e Julia Spadaccini e com direção artística de Patricia Pedrosa. A novela substituirá “Lá na Minha Terra”, de Mario Teixeira, que estreia em novembro no lugar de “A Nobreza do Amor”. A trama será ambientada nos anos 1940 e terá como protagonista uma jovem que desafia o preconceito da época para tentar se tornar jogadora de futebol.
A montagem de um elenco capaz de sustentar uma produção desse porte, porém, não é simples diante do cenário atual. Bons nomes estão divididos entre diferentes plataformas, muitos já têm compromissos assumidos e outros não consideram financeiramente interessante ficar vários meses envolvidos numa novela.
A situação se repete na faixa das sete. A Globo trabalha na escalação da próxima novela de Daniel Ortiz, dirigida artisticamente por Fred Mayrink e prevista para estrear em 8 de março de 2027, substituindo “Por Você”.
O próprio Ortiz já havia admitido, em junho, que ainda não tinha elenco definido e que a disponibilidade dos atores seria determinante para conseguir os nomes desejados. Na ocasião, afirmou que pretendia trazer alguns veteranos, mas ressaltou que seria necessário verificar a agenda desses profissionais.
A produção, inclusive, já recebeu uma recusa. Nicolas Prattes, atualmente em “A Nobreza do Amor”, foi convidado para a novela, mas decidiu não aceitar para poder se dedicar aos primeiros meses do filho que espera com Sabrina Sato.
O caso de Nicolas tem uma motivação pessoal específica, mas ajuda a mostrar uma realidade que hoje faz parte de qualquer escalação: a Globo já não tem mais os atores automaticamente à sua disposição.
A mudança de modelo resolveu uma questão financeira da empresa, mas criou outra dificuldade para a dramaturgia. A emissora economizou ao desmontar boa parte de seu antigo banco de talentos. Agora, quando precisa montar simultaneamente novelas das seis, sete e nove, além de séries para o Globoplay e outros projetos, disputa profissionais no mesmo mercado que ajudou a tornar mais livre.
E a escalação, que durante décadas foi uma das maiores forças da dramaturgia da Globo, virou também um dos principais desafios de suas próximas produções.

