Nova série do Globoplay aposta em elenco experiente, foge das escalações óbvias e encontra frescor em grandes talentos da dramaturgia
Há um frescor em “Emergência 53” que não vem da descoberta de novos talentos, mas justamente do contrário. A nova série do Globoplay reúne atores experientes, donos de carreiras sólidas e reconhecidas, mas que não estão o tempo inteiro na televisão. Yara de Novaes, Heloísa Jorge, Raquel Villar, Thaíssa Carvalho e William Nascimento são alguns desses rostos que chegam à produção sem o desgaste da superexposição — e lembram como pode ser prazeroso para o público assistir a excelentes intérpretes ocupando grandes personagens sem a sensação de estar vendo sempre as mesmas pessoas em cena.
Não estamos falando de novatos. Muito pelo contrário. São artistas experientes, com carreiras construídas no teatro, no cinema e na televisão, mas que ainda preservam para boa parte do grande público uma sensação de descoberta.
Yara de Novaes talvez seja o melhor exemplo. Uma atriz extraordinária, com uma carreira extensa e respeitadíssima, especialmente no teatro, além de trabalhos no cinema e na televisão, ela não é exatamente aquilo que se convencionou chamar de “rosto popular” da TV. E isso joga completamente a favor de Irene, a médica e gestora que fundou a Unidade 53.
Irene chega sem carregar o peso de dezenas de personagens recentes na memória do espectador. Yara consegue fazer com que aquela mulher pareça existir para além da tela: é firme no comando, segura profissionalmente e, ao mesmo tempo, vulnerável quando precisa lidar com a mãe, Dona Laura, vivida por Fernanda Montenegro.
Heloísa Jorge é outro presente da série. Como Glória, médica criada na Maré e que conhece desde cedo as dificuldades enfrentadas pela população pobre para ter acesso à saúde, ela ocupa uma posição central na história. É uma personagem grande, complexa, cheia de contradições e entregue a uma atriz que há muito tempo merece personagens dessa dimensão. Glória não precisa ser explicada o tempo inteiro: Heloísa consegue mostrar muito apenas na maneira como reage às situações.
O mesmo frescor aparece com Raquel Villar, intérprete da enfermeira Vanessa. A personagem veio de uma família humilde, conseguiu chegar ao ensino superior e alimenta o sonho de se tornar médica. Mais uma vez, é uma atriz experiente ganhando espaço de verdade numa produção de grande visibilidade.
Há ainda Thaíssa Carvalho como Lucinéia, a telefonista espirituosa da Unidade 53. Mesmo em outro registro, ela ajuda a formar esse conjunto que faz a série parecer habitada por pessoas, e não simplesmente por tipos previamente escalados para cumprir determinada função na trama.
William Nascimento também reforça essa sensação de frescor. O ator ganhou projeção nacional ao interpretar Anderson Silva em “Anderson Spider Silva”, série sobre a trajetória do lutador, e agora encontra em “Emergência 53” mais uma oportunidade de mostrar sua força dramática. É mais um exemplo de um intérprete que está longe de ser iniciante, mas que ainda não teve sua imagem desgastada pela exposição constante na televisão. Sua presença ajuda a dar à série justamente essa sensação tão agradável de estar diante de talentos que o público ainda tem muito a descobrir.
Isso não significa que “Emergência 53” dispense nomes mais conhecidos. Pelo contrário. Estão ali Emílio Dantas, Valentina Herszage, Ana Hikari, Jaffar Bambirra, Emílio de Mello e, claro, Fernanda Montenegro. O mérito está justamente no equilíbrio. Ninguém parece ter sido escalado apenas para colocar um nome conhecido no cartaz.
E talvez exista uma lição interessante nessa escalação. A televisão brasileira tem um contingente enorme de atores excelentes que não precisam estar em uma novela atrás da outra para serem reconhecidos como grandes talentos. Às vezes, justamente por não estarem permanentemente diante do público, chegam a um novo trabalho trazendo algo cada vez mais precioso: frescor.
“Emergência 53” tem esse frescor. É uma série brasileira, urbana, nervosa e humana, com uma identidade muito própria. E ainda oferece o prazer de assistir a excelentes atores tendo espaço para fazer aquilo que sabem fazer.
Num momento em que tantas produções parecem recorrer aos mesmos nomes para tentar garantir reconhecimento imediato do público, descobrir — ou redescobrir — Yara de Novaes, Heloísa Jorge, Raquel Villar, Thaíssa Carvalho e William Nascimento em personagens tão diferentes é também uma emergência muito bem-vinda na nossa dramaturgia.

