Áudio divulgado pelo LiveATC revelou os momentos de desespero dos pilotos de um jatinho que caiu em Palm Beach, nos Estados Unidos, e matou nove pessoas. A gravação registrou o pedido de socorro após a formação de gelo e a queda da aeronave a 22 mil pés por minuto.
Um áudio da comunicação entre a tripulação e o controle de tráfego aéreo de Miami revelou os momentos de desespero vividos pelos pilotos do jato particular que caiu em Palm Beach, no sul da Flórida, nos Estados Unidos, e matou nove pessoas. A gravação, divulgada pelo site LiveATC nesta segunda-feira (2), registrou os relatos de dificuldades durante o voo, o pedido de socorro e as últimas mensagens enviadas pela equipe antes da tragédia.
O áudio mostrou o exato momento em que os pilotos relataram a formação de gelo e turbulência. Menos de um minuto depois, a tripulação declarou emergência e informou que o avião despencava a uma velocidade de até 22 mil pés por minuto.
A aeronave era um Learjet 60, jato executivo fabricado pela Bombardier Learjet. O avião havia decolado de Austin, no Texas, com destino às Bahamas. Entre as vítimas estava a copiloto Nathalia Gadelha Filgueiras, de 20 anos, filha de brasileiros. A informação foi confirmada por familiares ao g1 e ao New York Post.
No início da comunicação, um dos ocupantes da cabine informou ao controlador que a aeronave atravessava uma área com formação de gelo e enfrentava turbulência moderada. “Estamos lidando com gelo, mas a turbulência é moderada”, afirmou. O controlador perguntou qual era a temperatura externa. A resposta foi: “Menos 47 graus Celsius”.
Em seguida, a tripulação pediu informações sobre regiões com condições mais favoráveis para o voo. “Se você tiver condições melhores, avise”, solicitou um dos pilotos. O controlador respondeu que a situação deveria melhorar mais adiante. “As condições melhoram no meu espaço aéreo aqui. Vocês estão um pouco fora dele agora; podem esperar condições melhores mais adiante”, disse.

Pouco depois, a tripulação informou que o avião entrava em uma área de precipitação e pediu autorização para subir de altitude. O pedido era para alcançar 37 mil pés, cerca de 11,3 quilômetros. O controlador autorizou a manobra. A situação, porém, se agravou rapidamente.
Uma voz na cabine, então, relatou que a aeronave começou a perder altitude e declara emergência. “Mayday! Mayday! Estamos descendo 10 mil pés por minuto”, diz um dos pilotos. O termo Mayday é uma chamada internacional de socorro, utilizada em situações de emergência grave que exigem assistência imediata.
Segundos depois, a tripulação reforçou o pedido e informou que a velocidade de descida aumentou para 20 mil pés por minuto. “Declare emergência! Estamos em uma condição [trecho inaudível], descendo 20 mil pés por minuto!”, afirmou uma voz. O controlador, então, perguntou do que os pilotos precisam. A resposta evidenciou a gravidade do momento: “Nós vamos bater no chão”.
Em outro trecho, a tripulação informou que a aeronave despencava ainda mais rápido. “Estamos descendo a 22 mil pés [por minuto] e estamos inclinando 60 graus”, descreveu uma voz na cabine. O áudio também registra gritos e falas parcialmente incompreensíveis. Em determinado momento, uma voz chegou a pedir: “Olhe para fora!”. Pouco depois, uma das últimas frases captadas é: “Estamos sem tempo”.
Ouça o áudio abaixo:
Avião cai e explode na Flórida; áudio registra desespero da piloto antes da queda: ‘Vamos bater!’
A piloto do jato executivo que caiu ontem (1º) no sul da Flórida, nos EUA, avisou que a aeronave estava em rápida descida, segundos antes do impacto https://t.co/JrxQq48jyf— 🇧🇷Michel Araújo 🌵 (@VdBrasileiro) November 2, 2026
Áudio registra oração nos momentos finais
Outro trecho do áudio divulgado após o acidente mostrou uma voz masculina que começa a recitar uma oração enquanto a aeronave enfrenta dificuldades. “Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome”, diz o homem, em referência ao início da oração do Pai-Nosso.
Enquanto a oração é pronunciada, a copiloto Nathalia pode ser ouvida ao informar que o Learjet estava inclinado em 60 graus. O áudio termina após a tripulação declarar que não havia mais tempo. O controlador, por sua vez, tenta obter uma resposta dos pilotos, mas não consegue restabelecer a comunicação. “November Two Bravo Delta, estou aqui com você. Fale comigo”, disse.
Sem retorno, ele tenta novamente: “November Two Bravo Delta, você me ouve?”. A última tentativa também não recebe resposta. “November Two Bravo Delta, Miami”, continua o controlador antes do fim do áudio.
Quem era Nathalia Gadelha, copiloto do avião
Nathalia Gadelha Filgueiras tinha 20 anos e era filha de brasileiros. A jovem ganhou destaque na imprensa americana em 2023, quando conquistou sua licença de piloto particular aos 17 anos, antes mesmo de obter a carteira de motorista.
Na época, ela cursava o último ano do ensino médio na West Boca Raton High School, na Flórida, e contou à emissora CBS12 News como conciliava os estudos com a paixão pela aviação. “Eu até me gabo disso, porque as pessoas dizem: ‘Ah, você não sabe dirigir’, e eu respondo: ‘É, mas sei pilotar’”, brincou.

O interesse pela aviação começou cedo. Nathalia iniciou os estudos teóricos de pilotagem em 2020, quando estava prestes a entrar no segundo ano do ensino médio. O pai, Allan, também tinha licença de piloto e foi uma de suas inspirações. Ele começou a pilotar por lazer em 2018 e compartilhava os conhecimentos com a filha.
A formação da jovem incluiu aulas teóricas, simuladores de voo, exercícios práticos e provas técnicas. Em setembro de 2023, ela conquistou a licença de piloto particular. Na ocasião da entrevista, já havia acumulado 88 horas de voo e podia pilotar aeronaves particulares sozinha ou transportar passageiros, desde que não recebesse pagamento pelo serviço.

O treinamento foi custeado pelo distrito escolar de Palm Beach County, por meio de uma academia de aviação que oferecia aulas e capacitação a estudantes do ensino médio. Segundo as regras da Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA), a licença de piloto particular pode ser concedida a partir dos 17 anos, desde que o candidato cumpra os requisitos de treinamento e seja aprovado nos exames teóricos e práticos.
Já a licença de piloto comercial pode ser obtida a partir dos 18 anos e exige, em regra, pelo menos 250 horas de voo. Para atuar como copiloto de jatos executivos, também são necessárias habilitações e qualificações específicas, conforme a aeronave e o tipo de operação.
Nathalia tinha o objetivo de se tornar piloto de uma companhia aérea comercial ou trabalhar na aviação executiva, com voos em jatos particulares. Nas redes sociais, ela compartilhava registros de sua rotina na aviação e comemorava conquistas profissionais. Em março de 2026, a jovem publicou uma foto na cabine de comando de um Learjet 60, acompanhada de uma mensagem sobre uma nova etapa da carreira.
O que pode ter provocado o acidente?
O áudio não esclarece o que provocou a perda de controle da aeronave. Embora a tripulação mencione gelo, turbulência e precipitação nos momentos finais, as causas ainda precisam ser determinadas pela investigação. Especialistas levantaram a possibilidade de que as condições meteorológicas tenham contribuído para o acidente.
Um dos fenômenos citados foi o chamado coffin corner, situação em que, em grandes altitudes, a velocidade mínima segura e a velocidade máxima permitida para a aeronave ficam muito próximas. Essa margem reduzida dificulta o controle do avião e aumenta o risco de perda de sustentação.
CRAZY FOOTAGE: New video shows the moment a plane went down in Greenacres, Florida. https://t.co/kJehk0rhhE
— Open Source Intel (@Osint613) November 1, 2026
Impact crater observed from the aircraft crash site in Greenacres, Florida. https://t.co/SYDGSpA1JT
— WBC24 (@WBC24News) November 1, 2026
A Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos (FAA) informou que enviaria uma equipe para dar suporte à investigação do Conselho Nacional de Segurança nos Transportes (NTSB). O acidente ocorreu a cerca de oito milhas do resort Mar-a-Lago, propriedade do presidente Donald Trump.
O jatinho caiu em uma área residencial e explodiu após atingir o solo. Os destroços ficaram espalhados por uma grande extensão, e o impacto abriu uma cratera na via. Nenhuma pessoa em solo morreu ou ficou ferida, segundo as informações divulgadas pelas autoridades.
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