Documentos divulgados pela revista People revelaram que a defesa de Christa Pike já havia alertado sobre os riscos de sua execução no Tennessee, nos Estados Unidos. A detenta sobreviveu a duas doses de injeção letal, e os advogados apontaram condições de saúde que poderiam provocar complicações durante o procedimento.
Documentos divulgados pela revista People, nesta quarta-feira (4), mostraram que os advogados de Christa Pike já estavam preocupados com os riscos de sua execução há meses. A detenta sobreviveu a duas doses de uma injeção letal e ficou dez dias internada. Segundo a defesa, uma doença rara no sangue e um câncer poderiam provocar complicações graves durante a aplicação da substância. Um dos médicos que analisou o caso ainda apontou que esses fatores podem ter contribuído para sua sobrevivência.
A ação, que data de janeiro deste ano, apontava que Pike apresentava uma quantidade anormalmente alta de plaquetas no sangue, condição conhecida como trombocitose. A alteração seria causada por uma provável doença mieloproliferativa, um tipo raro de câncer sanguíneo. Dessa forma, a defesa afirma que o procedimento “muito provavelmente resultaria em dor e sofrimento desnecessários e adicionais, terror e desgraça”.
Um dos principais receios era o desenvolvimento de um edema pulmonar. “Um edema pulmonar não é simplesmente doloroso ou desconfortável; pode criar uma sensação de sufocamento ou afogamento que foi comparada por especialistas à sensação induzida intencionalmente pela prática de afogamento simulado, uma forma inequívoca de tortura pura e simples”, afirmaram no processo.

A defesa também chamou a atenção para as dificuldades de acesso às veias de Pike. Segundo os documentos, a detenta tinha “um histórico de dificuldades com coleta de sangue e inserção de agulhas”. Os advogados sugeriram a utilização de uma agulha borboleta, porque seria “uma alternativa viável e de fácil implementação que reduz significativamente o risco substancial de dor e sofrimento desnecessários”.
O médico Joel Zivot, que assessorou a defesa, levantou a hipótese de que a alteração sanguínea também tenha interferido na administração do medicamento letal. No entanto, ainda não há confirmação de que a possível doença tenha contribuído para a sobrevivência de Pike.
Recentemente, ela falou pela primeira vez sobre sua tentativa de execução frustrada e afirmou estar “profundamente magoada com a incompetência” do procedimento. “Vários dias depois, acordei sozinha em um hospital, confusa e com dores. Desde aquela noite, não houve um momento sequer em que eu não sentisse dor. Meu corpo dói. Meus braços doem. Minhas mãos doem. Minha garganta dói. Ainda tenho dificuldade para falar. E a dor não é apenas física. Há dor na minha mente e na minha alma”, desabafou. Leia a íntegra, clicando aqui.
Pike sobreviveu após falha no procedimento
Toda a dinâmica da execução foi conturbada. A sessão estava marcada para as 10h do dia 30 de setembro, mas uma hora antes, um tribunal suspendeu o procedimento. A decisão, no entanto, logo foi derrubada pela Suprema Corte estadunidense.
À noite, a condenada foi levada à câmara de execução presa a uma maca e, às 19h27, a sessão recomeçou. Ela recebeu duas doses de pentobarbital, com a segunda aplicação sendo por volta das 20h26, mas não morreu. Testemunhas da Associated Press afirmaram que ainda conseguiam ouvi-la roncando atrás das cortinas até o microfone ser desligado, às 20h53. A detenta deixou a penitenciária em uma ambulância e foi encaminhada para um hospital, mas seu estado de saúde não foi informado.
Robin M. Maher, diretora-executiva do Death Penalty Information Center, classificou o episódio como “algo único e sem paralelo“. Segundo a especialista, sete condenados já sobreviveram a execuções porque as equipes não conseguiram acessar uma veia para administrar os medicamentos. Até então, porém, não havia registro de uma pessoa que permanecesse viva depois de realmente receber as doses.

Christa foi condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, em 1995. Na época, ela tinha 18 anos. O crime ganhou repercussão devido a um pentagrama gravado no corpo da vítima e a outros elementos associados a cultos satânicos. Caso a execução tivesse sido concluída, Christa seria a primeira mulher executada no Tennessee em mais de 200 anos.
Siga o Hugo Gloss no Google Discover e acompanhe nossas notícias
