A execução de Christa Gail Pike foi suspensa temporariamente nesta quarta-feira (30), cerca de uma hora antes do horário previsto no Tennessee, EUA. A decisão do Tribunal de Apelações ocorreu após a defesa apresentar um novo recurso sobre o histórico de abusos sofridos pela detenta.
A execução de Christa Gail Pike foi suspensa nesta quarta-feira (30), cerca de uma hora antes do horário previsto para a aplicação da injeção letal no Tennessee, nos Estados Unidos. De acordo com a People, a decisão foi tomada por um painel do Tribunal de Apelações do 6º Circuito, que concedeu uma suspensão temporária para analisar um novo pedido apresentado pela defesa. A mulher foi condenada pelo assassinato de Colleen Slemmer, em 1995.
Pike estava programada para ser executada às 10h, no horário local, na penitenciária Riverbend Maximum Security Institution, em Nashville. O tribunal determinou que a suspensão permanecerá válida “até nova ordem” enquanto os magistrados analisam a questão jurídica apresentada pelos advogados da detenta.
A decisão foi tomada por 2 votos a 1. As juízas Jane Stranch e Karen Nelson Moore apoiaram a suspensão, enquanto o juiz Richard Griffin discordou. Stranch afirmou que uma pausa era necessária para que o tribunal pudesse analisar adequadamente os argumentos apresentados pelas partes. “O interesse da justiça e a finalidade da execução iminente de Pike exigem a concessão de uma breve suspensão da execução para analisar adequadamente os argumentos das partes, que foram integralmente apresentados, e resolver as questões quanto ao mérito”, escreveu a magistrada.
Defesa questiona análise de histórico de abusos
O novo recurso apresentado pela defesa de Pike está relacionado ao histórico de abusos sexuais sofridos por ela durante a infância e a adolescência. Os advogados argumentam que mudanças recentes na posição do próprio estado do Tennessee sobre esse histórico colocam em dúvida aspectos dos processos anteriores.
A defesa sustenta que o reconhecimento, pelo estado, de que Pike foi vítima de abusos enfraquece a base de decisões anteriores e levanta questionamentos sobre a forma como o caso foi analisado posteriormente no âmbito federal. O 6º Circuito ainda precisa decidir se o pedido deve ser tratado como uma tentativa de reabrir o processo de habeas corpus anterior ou como uma nova petição, submetida a restrições legais mais rígidas.
O estado apresenta uma interpretação diferente. Segundo os documentos, os procuradores sustentam que Pike estaria tentando reapresentar uma alegação relacionada à atuação de seus antigos advogados, que, segundo a defesa, não teriam investigado ou apresentado adequadamente as evidências sobre os abusos.

O juiz Richard Griffin, que votou contra a suspensão, classificou o novo recurso como uma “outra tentativa de última hora e sem mérito para adiar uma execução legal” e defendeu que o pedido fosse rejeitado.
A suspensão ocorreu um dia depois de a Suprema Corte dos Estados Unidos rejeitar um pedido anterior da defesa para interromper a execução. O governador do Tennessee, Bill Lee, também havia negado o pedido de clemência de Pike na segunda-feira (28).
Após a decisão do 6º Circuito, o gabinete do procurador-geral do Tennessee solicitou à Suprema Corte que derrube a suspensão e permita que a execução seja realizada. O estado classificou a questão como um problema “técnico” e afirmou que continuará defendendo a sentença.
A situação deixou sem definição imediata uma nova data para a execução. Testemunhas já estavam reunidas na penitenciária quando a ordem judicial foi emitida, por volta das 9h no horário local, de acordo com a Associated Press.
Crime aconteceu em 1995
Christa Pike foi condenada à morte pelo assassinato de Colleen Slemmer, de 19 anos, em janeiro de 1995. Na época, Pike tinha 18 anos e era estudante do programa profissional Job Corps, em Knoxville. Segundo a polícia, Pike, o então namorado Tadaryl Shipp e a amiga Shadolla Peterson atraíram Colleen para uma área de mata do campus agrícola da Universidade do Tennessee. Slemmer foi atacada e torturada antes de morrer.

A investigação apontou que Pike acreditava que Slemmer estaria interessada em Shipp. Durante o ataque, a vítima foi golpeada e ferida com objetos cortantes. Tadaryl posteriormente admitiu ter desenhado um pentagrama no corpo da jovem. Pike também teria levado consigo um fragmento do crânio da vítima e exibido o objeto a outros estudantes, segundo documentos judiciais, como forma de se vangloriar.
Pike foi condenada por assassinato e conspiração para cometer assassinato em 1996. Tadaryl, que tinha 17 anos na época do crime, recebeu pena de prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional. Já Shadolla fez um acordo judicial e recebeu seis anos de liberdade condicional. Pike foi a única dos três a receber a pena de morte.
Pike admite participação no assassinato
A defesa não contesta que Pike participou da morte de Slemmer. O argumento atual é de que a pena deveria ser convertida em prisão perpétua, levando em consideração sua idade na época do crime, seu estado de saúde mental e o histórico de abusos.
Segundo registros judiciais citados pelo USA Today, Pike sofreu abusos sexuais ainda na infância, foi estuprada aos 11 anos e novamente aos 17. Posteriormente, recebeu diagnósticos de transtorno bipolar e transtorno de estresse pós-traumático. Os advogados afirmam que os jurados responsáveis pela sentença de morte não tiveram acesso a toda a extensão desse histórico.

Em declaração incluída no pedido de clemência, Pike reconheceu a gravidade do crime e afirmou ter levado anos para compreender completamente as consequências de seus atos. “Eu era uma jovem de 18 anos com doença mental. Levei muitos anos para perceber a gravidade do que havia feito. Mais ainda para aceitar quantas vidas eu havia afetado”, afirmou, segundo a Associated Press.
Ela também declarou: “Eu tirei a vida do filho, da irmã e da amiga de alguém. Hoje me enoja pensar que fui capaz de cometer um crime como esse”.
Antes da decisão sobre a execução, Pike havia escrito que estava em paz diante da possibilidade de morrer. “Independentemente de minha clemência ser concedida ou não, estou em paz. Não tenho medo de morrer. Estou apenas nervosa com o processo”, escreveu em uma carta divulgada pela NBC News.
Caso poderia marcar precedente no Tennessee
Se a execução for realizada, Pike será a primeira mulher executada pelo estado do Tennessee em pelo menos 200 anos. Ela também é a única pessoa executada pelo estado na era moderna da pena de morte por um crime cometido aos 18 anos.
A mãe de Colleen Slemmer, May Slemmer Martinez, apoia a execução. Ela e o marido viajaram da Flórida para acompanhar o procedimento, que acabou suspenso antes de ser realizado. Por enquanto, a execução permanece suspensa. O próximo passo depende da análise do recurso pelo tribunal federal e da decisão da Suprema Corte sobre o pedido do Tennessee para derrubar a ordem que interrompeu o procedimento.
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