O criador da personagem gerada por inteligência artificial (IA) que levou um homem a viajar mais de 2 mil quilômetros se pronunciou e explicou qual era o objetivo do perfil. Ele ainda disse como descobriu o ocorrido e admitiu um medo após a repercussão do caso.
O criador da personagem gerada por inteligência artificial (IA) que levou um homem a viajar mais de 2 mil quilômetros em busca de um relacionamento disse que o intuito do perfil era “exclusivamente gerar vendas”. Nesta quinta-feira (15), ao g1, ele também admitiu que está com medo após a repercussão do caso.
A autor não quis se identificar e conversou com o portal através de uma conta no TikTok. Segundo ele, a personagem Jessica Oliveira foi criada em 2025, a fim de atrair compradores para produtos que anunciava na conta e, assim, fazer uma renda extra.
Em seguida, o criador do perfil se pronunciou sobre o caso de Edimar Rocha Martins, morador de Imperatriz, no Maranhão, que viajou até Belo Horizonte, em Minas Gerais, para conhecer a pretendente virtual. Conforme o entrevistado, ele soube do ocorrido através de vídeos no Youtube.
“Eu quero deixar bem claro que esse perfil nunca mandou mensagem para ninguém, nunca chamou ninguém para ir para Belo Horizonte. Ele só foi criado com o intuito de fazer vendas. Depois que esse perfil parou de me gerar renda, depois que eu aprendi mais sobre inteligência artificial, eu parei de fazer e fui para outros ramos da internet”, explicou o homem.

“Jessica” tinha mais de 300 mil seguidores no TikTok, mas teve o perfil desativado nesta quarta (14). A falsa mulher se apresentava como viúva e dizia frases como “eu quero te bancar” e “meu lindo, eu queria tanto você aqui morando comigo na minha fazenda”. Os conteúdos também passaram a circular no Facebook e na plataforma Kwai.
“Esse perfil estava praticamente parado. Eu publiquei um vídeo agora, dia 1º de outubro, que foi sobre o TikTok Shop. Só que eu abandonei de novo”, disse, confessando a surpresa que teve ao descobrir o que havia acontecido. “De novo, eu quero deixar bem claro que eu não troquei mensagem com ninguém, nunca falei para ninguém mandar dinheiro”, defendeu-se.
O criador ainda deixou um alerta para as pessoas. “Da mesma forma que eu uso isso, a inteligência artificial, para fazer vendas e ganhar uma renda, com certeza também há pessoas que usam isso para o mal. Então, eu quero deixar bem claro para as pessoas procurarem entender um pouco e ver se é verdadeiro ou não, se a pessoa mandou mensagem diretamente ou não, antes de fazer qualquer viagem igual esse rapaz fez”, aconselhou.
O homem ainda disse que recebeu mensagens que questionavam o motivo dele ter privado os vídeos. “Foi exatamente por isso, porque eu não uso mais esses vídeos, eu não uso mais essa conta. Eu tenho acesso a ela, mas eu não uso ela frequentemente. Como ela não me gera renda, eu não vejo sentido em continuar. Os vídeos ainda estão disponíveis, só que eu privei exatamente para as pessoas que usam isso para o mal”, justificou.
Ouça na íntegra:
Criador de IA que fez homem viajar mais de 2 mil km se pronuncia e admite medo https://t.co/V1cWxOWP1T
— WWLBD ✌🏻 (@whatwouldlbdo) October 15, 2026
Também ao g1, o homem admitiu estar sentindo medo após a repercussão do caso. Ele enfatizou que o objetivo do perfil era apenas “chamar atenção”. “Esses vídeos nunca foram feitos para causar esse tipo de transtorno na vida de ninguém. Os vídeos foram um gancho para chamar atenção, [para que] depois que eu conseguisse um público, começasse a postar vídeos sobre vendas”, completou.
O que dizem as autoridades
A Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) afirmou que o uso de ferramentas de inteligência artificial para criar personagens fictícios não configura, por si só, infração penal. Porém, os responsáveis podem responder criminalmente se esses recursos forem empregados para enganar terceiros, obter vantagens ilícitas, causar prejuízos ou praticar outras condutas criminosas.
A corporação salientou que, em situações envolvendo relacionamentos virtuais, a conduta pode caracterizar crimes como estelionato e fraude eletrônica “caso estejam presentes os requisitos legais, especialmente a obtenção de vantagem ilícita mediante fraude e o prejuízo patrimonial da vítima“.
A PCMG ainda destacou que não há registros de ocorrência relacionados ao caso de Edimar. “Dessa forma, não é possível afirmar, neste momento, que tenha ocorrido crime, tampouco apontar eventuais responsáveis, uma vez que a caracterização de infração penal depende da análise dos elementos concretos e da existência de indícios de conduta tipificada na legislação”, declarou.
Como evitar golpes de IA?
A Polícia Civil de MG também listou uma série de precauções quando se trata de golpes envolvendo IA:
- Desconfiar de perfis que evitem encontros presenciais ou verificações de identidade por videochamada;
- Não realizar transferências bancárias, pagamentos ou empréstimos a pessoas conhecidas exclusivamente pela internet;
- Verificar a autenticidade de fotografias e perfis, inclusive por meio de pesquisas reversas de imagens, lembrando que esses procedimentos não garantem a identificação de conteúdos gerados por inteligência artificial;
- Evitar o compartilhamento de documentos pessoais, dados bancários e imagens íntimas com desconhecidos;
- Antes de realizar viagens ou assumir compromissos financeiros motivados por relacionamentos virtuais, buscar confirmar a identidade e a veracidade das informações fornecidas;
- Em caso de suspeita de golpe, preservar mensagens, comprovantes, perfis, números de telefone e demais evidências digitais, além de registrar ocorrência policial.
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