Mensagens obtidas pela revista Piauí detalham uma festa no tríplex de Daniel Vorcaro, em São Paulo, em fevereiro de 2025, que teria contado com a presença do ministro Kassio Nunes Marques e cinco mulheres. O ministro nega contato com o ex-banqueiro e afirma nunca ter pedido nada a ele.
Mensagens extraídas do celular de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, detalham os preparativos e os acontecimentos de uma festa realizada em seu tríplex, no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, em 28 de fevereiro de 2025. Segundo reportagem da revista Piauí, publicada nesta quinta-feira (15), o encontro teria contado com a presença do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Kassio Nunes Marques e de cinco mulheres contratadas por meio de uma intermediária.
A publicação afirma ter tido acesso a 125 mensagens trocadas entre Vorcaro e sete pessoas que participaram da organização da noite, entre elas motoristas, um chef de cozinha, o mordomo, uma agenciadora de garotas de programa, uma faxineira e um amigo arquiteto. Os registros, conforme a reportagem, descrevem a preparação do imóvel, a chegada das convidadas e a distribuição dos quartos.
O caso ganhou repercussão em 15 de setembro, quando os jornalistas Andreza Matais e André Shalders, do Metrópoles, publicaram conversas atribuídas a Vorcaro e a Rayanna, apontada como agenciadora de garotas de programa. Nos diálogos, um homem identificado como “Kassio”, com a mesma grafia do nome do ministro, é mencionado em uma conversa sobre um encontro anterior.
Rayanna teria escrito ao então banqueiro: “Minha amiga esteve lá naquele dia! Deu certo, né? […] Ela disse que ficou com o Kassio”. Em seguida, acrescentou: “Ela está me cobrando aqui”. Vorcaro perguntou qual seria o valor, e Rayanna respondeu: “10, né!”, antes de enviar sua chave Pix.
Em 13 de outubro, o UOL publicou outra reportagem sobre o episódio. Segundo o veículo, cinco garotas de programa estiveram no tríplex naquela noite. A jornalista Daniela Lima também revelou uma mensagem na qual Vorcaro informou a Luiz Rennó, ex-diretor jurídico do Master, que estava “fazendo graça para ministro em SP”.
As mensagens divulgadas pela Piauí acrescentam detalhes sobre a organização da festa e indicam que Vorcaro acompanhou parte dos preparativos. Os registros, contudo, não permitem concluir que ele tenha permanecido no imóvel durante todo o evento nem esclarecer todas as circunstâncias do encontro.
Preparativos começaram dois dias antes
Segundo a Piauí, os preparativos tiveram início em 26 de fevereiro, dois dias antes da festa. Na madrugada daquele dia, o desembargador Newton Ramos, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), teria solicitado ao agente de viagens de Vorcaro uma reserva no Hotel Fasano, no Itaim Bibi, do qual o banqueiro era sócio. “Esta sexta para sábado, para o KN”, teria escrito o desembargador, em referência às iniciais de Kassio Nunes.
No mesmo dia, Vorcaro procurou o chef José Maria Meira e avisou: “Sexta-feira, churrasco animado”. Em seguida, enviou uma mensagem incompleta: “Com ministro e…”.
Na véspera da festa, o chef foi às compras. De acordo com a reportagem, ele gastou R$ 1.772 em um açougue da rede DeBetti. Em outro estabelecimento, comprou cinco latas de caviar por R$ 15.100, além de trufas. As despesas com os ingredientes teriam chegado a R$ 21.121,90. Com os demais serviços, os gastos com a organização ficaram próximos de R$ 27 mil, segundo a publicação.

Vorcaro também teria avisado ao amigo Kiko Sobrinho que receberia um ministro na sexta-feira. “Vou receber ministro aqui sexta-feira”, escreveu. Os dois chegaram a se confundir sobre o endereço do encontro. Vorcaro mencionou um almoço “na casa” e perguntou sobre a chave e a segurança. Kiko entendeu que a recepção ocorreria em outro imóvel e alertou que havia obras na piscina.
Às 23h07 da véspera, o mal-entendido teria sido resolvido. Vorcaro orientou o mordomo Michael a comparecer, às 13h do dia seguinte, ao apartamento conhecido como “Leo”, na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi. Na manhã de sexta-feira, às 11h14, Michael informou que já seguia para o local para ajudar a preparar o churrasco. Mais tarde, Vorcaro teria enviado o endereço à agenciadora Rayanna.
Vorcaro acompanhou os detalhes da festa
No dia do encontro, o ex-banqueiro informou ao chef que seriam 15 convidados. “São 15 pessoas”, escreveu, antes de acrescentar: “Vamos precisar de um garçom”. Rayanna avisou que não poderia comparecer pessoalmente, mas que enviaria duas mulheres. “Vou mandar elas irem e acerto com elas depois”, teria afirmado.
As mensagens também registrariam reclamações de Vorcaro sobre os detalhes do apartamento. Às 10h19, ele teria escrito a Kiko Sobrinho: “Cara, essas automações vão me matar um dia”. Em seguida, perguntou se alguém poderia ir ao imóvel para consertar os controles dos ambientes. Pouco depois, informou que havia resolvido o problema sozinho.
Às 12h44, Vorcaro teria enviado quatro mensagens seguidas sobre um sofá na varanda: “Pelo amor de Deus. Tire aquele sofá da varanda, Leo. Estou passando vergonha. Melhor deixar sem nada. Ele fica logo na entrada, é a primeira coisa que a pessoa vê”. Às 13h56, surgiu outra reclamação: “Agora o ar-condicionado pifou”, escreveu. Kiko prometeu chamar uma assistência técnica.
Pouco depois, começaram a chegar as convidadas. Às 14h04, um dos motoristas teria perguntado: “Doutor, as meninas começaram a chegar. Posso liberar?”. Vorcaro respondeu: “Todas as que chegarem. Pode subir”. Às 14h40, o ex-banqueiro avisou ao motorista que alguns convidados chegariam em um Ford Fusion preto e pediu que ele os recebesse.
Vorcaro ainda teria reclamado com Michael sobre as janelas da sala, que permaneciam fechadas. “Abra as janelas!!!”, ordenou. Às 14h54, o mordomo respondeu: “Seus convidados subiram, reparando bem na localização da sua casa e também avaliando o apartamento. Estão admirados”.
Enquanto festa acontecia, Master enfrentava crise financeira
Depois de orientar a chegada dos convidados, Vorcaro teria passado mais de cinco horas sem enviar novas mensagens nas conversas relacionadas à festa analisadas pela Piauí. Nesse intervalo, porém, continuou a tratar de problemas financeiros do Banco Master. Às 16h31, um contato atribuído a Paulo Sérgio Souza, ex-diretor do Banco Central, teria escrito ao banqueiro: “Daniel, o banco está com R$ 800 milhões no compulsório. Há algum problema maior?”.
Vorcaro respondeu que não havia motivo para preocupação. “Não, depois do Carnaval tudo vai se regularizar”, afirmou. Em seguida, acrescentou: “Já fechamos a venda de carteira e uma nova captação. Na semana depois do Carnaval, devemos ter um aumento significativo de caixa”.

O compulsório corresponde aos recursos que os bancos precisam manter depositados no Banco Central. Segundo a reportagem, o Master havia recorrido a esses recursos para sustentar sua liquidez naquele dia, em meio às dificuldades financeiras. Vorcaro contava com uma operação de venda de participação ao BRB, banco estatal do Distrito Federal, anunciada no mês seguinte.
Às 20h20, Vorcaro teria perguntado a Alberto Felix de Oliveira Neto, um dos executivos do banco, quanto a instituição havia utilizado. “R$ 1,25 bilhão”, respondeu Alberto. O valor teria irritado o então banqueiro. “Como assim, Alberto? Estava em R$ 800 milhões. Vocês enlouqueceram”, escreveu.
Às 20h26, Vorcaro procurou outro executivo, Angelo Silva, e ordenou: “Demita Alberto. Vamos voltar, eu e você, e tentar salvar o banco. O cara deixou o banco com saldo negativo de R$ 1,25 bilhão”.
Mensagens relatam chocolate e distribuição dos quartos
Enquanto tratava da situação financeira do Master, Vorcaro também teria recebido atualizações do mordomo sobre o que acontecia no apartamento.
Às 20h06, o banqueiro escreveu a Michael: “Venha aqui”. Naquele momento, o funcionário relatou que um convidado queria mais chocolate, mas que ele havia recusado o pedido por uma orientação anterior do patrão. “O rapaz de preto está pedindo mais chocolate. Estou dizendo que não tem mais, pois o senhor já brigou comigo e disse que não era para dar”, escreveu Michael. Vorcaro respondeu: “Nunca mais faça isso”.
A reportagem afirma que não foi possível identificar com certeza a que tipo de chocolate as mensagens se referiam. O texto também menciona informações sobre a existência, no imóvel, de chocolates convencionais e de uma variedade feita com cogumelos alucinógenos. A conversa citada, porém, não comprova qual produto teria sido oferecido ao convidado.
Cerca de 30 minutos depois, Michael teria informado que havia emprestado um quarto ao ministro e às cinco mulheres. O mordomo explicou que tentou telefonar para pedir autorização, mas Vorcaro não atendeu. Às 21h29, o banqueiro respondeu: “Claro, sim”. Oito minutos depois, deu novas instruções: “Só feche meu quarto. Mostre o outro. Se vier o terceiro, coloque na sala de TV”.
Às 22h08, Michael teria relatado uma mudança no ambiente da festa. “Está todo mundo pelado na piscina”, escreveu. Em seguida, acrescentou: “Uma passou mal e vomitou, mas já está bem”. Às 22h55, Vorcaro perguntou se o mordomo havia providenciado toalhas para os convidados: “Pegou toalha para eles?”.
Michael confirmou que sim e acrescentou: “O ministro não tem pressa nenhuma de ir embora. Acabou de falar que está renovando para começar tudo de novo”. Às 23h15, o funcionário avisou que o ministro se preparava para sair. Dois minutos depois, informou: “Está indo embora”.
Às 23h24, Michael teria enviado uma foto na qual aparecem três preservativos usados sobre um tapete. “Estou arrumando para não deixar essas coisas para a Selma”, escreveu, em referência à faxineira. Três minutos depois, encaminhou outra imagem, desta vez de uma calcinha preta de renda entre o lençol e a fronha de uma cama. “Essas meninas são artistas. Olha onde achei, embaixo do travesseiro”, comentou.
Segundo a reportagem, Vorcaro não respondeu à mensagem. Na manhã seguinte, teria dispensado a faxineira: “Não precisa vir hoje”.
Caso levanta questionamentos sobre relação com ministro
A Piauí também relaciona o episódio a outras conexões entre Vorcaro e Kassio Nunes Marques que vieram a público após a crise do Banco Master.
Cinco meses antes da festa, o ministro desempatou, na Segunda Turma do STF, o caso Alcídia, relacionado a precatórios do setor sucroalcooleiro. Segundo a publicação, a decisão era estratégica para os interesses financeiros do Master. A reportagem afirma que mensagens indicariam que Vorcaro e seus advogados comemoraram o resultado.
A revista também cita transferências de recursos feitas pelo Master à Consult Inteligência Tributária no período da festa. Segundo a publicação, o banco realizou 14 operações que totalizaram R$ 6,6 milhões. A reportagem afirma que a consultoria repassou R$ 282 mil diretamente a Kevin Marques, filho do ministro.
A publicação também menciona mensagens que, segundo sua apuração, indicariam que Vorcaro pagava a Kevin um salário mensal de R$ 500 mil.

O material divulgado também menciona pedidos da defesa do Master para que processos relacionados ao banco ficassem sob a relatoria de Nunes Marques, em vez de André Mendonça.
A revista procurou o ministro e questionou se ele esteve na festa, se houve pagamento a alguma mulher presente e se considera que o episódio compromete sua atuação em processos relacionados ao Banco Master. Também perguntou se ele deveria reconhecer impedimento em votos já proferidos e se considera ter condições de continuar na presidência do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Ministro nega ter mantido contato com Vorcaro
Em resposta, Kassio Nunes Marques enviou uma nota com a seguinte declaração:“O ministro Kassio Nunes Marques nunca votou a favor de Daniel Vorcaro — inclusive, votou pela manutenção da prisão —, nunca trocou mensagens com ele e nunca pediu nada ao banqueiro. O ministro também nunca autorizou ninguém a falar em seu nome e não pode se responsabilizar por conversas ou ações de terceiros”.
A manifestação nega contato direto entre o ministro e Vorcaro, mas não responde individualmente a todas as questões relatadas pela revista sobre a festa e os demais vínculos mencionados.
As mensagens descritas pela Piauí documentam, segundo a publicação, conversas entre Vorcaro e pessoas envolvidas na organização do encontro. A identificação dos participantes, as circunstâncias da festa e as alegações relacionadas a pagamentos devem ser avaliadas considerando o conjunto das informações disponíveis e as manifestações dos citados.
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