Minancora: para que serve esse clássico, afinal?

Continuando meu especial sobre os clássicos da beleza brasileira (leia aqui sobre o Leite de Rosas), chegou a hora de trazer tudo a respeito de uma latinha que faz parte da história de muita gente. A Minancora foi – e talvez ainda seja – usada como aquela pomada faz-tudo: entra pra jogo em espinha, machucado, picada de inseto, frieira, chulé…

Mas será que a pomada Minancora serve mesmo para tudo isso? E, principalmente, será que alguns dos usos que ficaram famosos ao longo dos anos têm alguma coisa a ver com a fórmula do produto? Resolvi investigar – afinal, estamos falando de um clássico que existe há mais de 100 anos e se mantém firme e forte no mercado até hoje.

A história da pomada Minancora

Minancora história

A história da Minancora começa no início do século 20, com o farmacêutico português Eduardo Augusto Gonçalves. De acordo com a própria marca, ele veio para o Brasil e começou a pesquisar ingredientes e formulações por aqui, até chegar à pomada que seria registrada em 1915. A produção começou em Joinville, em Santa Catarina, onde também funcionava a farmácia do fundador.

E tem uma curiosidade bem simpática por trás do nome: Minancora seria a junção de Minerva, deusa romana da sabedoria, com âncora, em referência à decisão de Eduardo de permanecer no Brasil e por aqui criar raízes. Outra coisa interessante é que os três principais ativos que deram origem à fórmula continuam por lá: óxido de zinco, cloreto de benzalcônio e cânfora.

Afinal, o que tem na Minancora?

Minancora fórmula

Vamos combinar que é muito fácil olhar pra uma pomada que existe há mais de um século e pensar que ela deve ter alguma fórmula misteriosa, quase mágica. Mas não é o caso aqui. Inclusive, é bem ao contrário! Os ingredientes principais da Minancora ficam estampados na tampa do potinho e têm funções bastante conhecidas por quem entende de formulação de cosméticos.

Óxido de zinco

Começando pelo óxido de zinco, que talvez seja o mais conhecido de todos. Na Minancora, ele ajuda a formar uma camada protetora na epiderme e tem ação adstringente e cicatrizante. Em outras palavras, é um ingrediente que ajuda a manter a pele em melhores condições enquanto ela se recupera.

Agora, uma coisa importante: óxido de zinco não é um agente clareador! Ele pode esbranquiçar a pele depois da aplicação, mas isso acontece porque o ingrediente tem naturalmente a coloração branca e fica depositado na superfície. Isso não significa, portanto, que esteja diminuindo manchas ou interferindo na produção de melanina.

Cloreto de benzalcônio

O segundo ativo é o cloreto de benzalcônio, que é um antisséptico. Ele ajuda a controlar microrganismos na superfície da pele e, por isso, faz bastante sentido dentro de uma pomada com as indicações da Minancora. Só que existe um pequeno porém: esse ingrediente também pode ser irritante para algumas pessoas (cerca de 1 a 5% da população) e, em determinados casos, causar dermatite de contato. Então, é preciso começar o uso do produto com cautela para entender como a pele reage, combinado?

Cânfora

Dentre os principais ingrediente, temos, por fim, a cânfora, responsável por boa parte daquele cheirinho tão característico da pomada! Ela pode proporcionar sensação de alívio em situações de coceira e irritação e também apresenta propriedades antimicrobianas e anti-inflamatórias. É outro ingrediente que tem uma função real na fórmula – não está ali só para deixar a Minancora com “cheiro de Minancora”, embora tenha criado uma espécie de marca registrada para o produto.

Além disso…

A base ainda leva ingredientes como petrolato, parafina e cera de abelha, que ajudam a dar aquela textura espessa e característica da pomada e também contribuem para formar uma camada protetora sobre a pele. Resumindo: a fórmula da Minancora tem lógica! O que acontece é que, olhando para ela com os conhecimentos e opções que temos hoje, algumas coisas ficam mais claras.

Minancora: para que serve, afinal?

Minancora para que serve

Segundo a própria marca, a pomada é indicada para espinhas, frieiras e escaras. Também pode ser usada como coadjuvante em situações como picadas de insetos, urticárias e pequenos ferimentos superficiais. A empresa ainda cita a prevenção de odores desagradáveis nos pés e nas axilas. Olhando para os ingredientes, dá para entender de onde vêm essas indicações. Agora vamos às duas perguntas que provavelmente fizeram você chegar até aqui.

Minancora clareia a pele?

Essa é uma daquelas informações que vão passando de pessoa para pessoa até virarem quase uma verdade universal. Mas não existe na fórmula da Minancora um ativo clareador propriamente dito. Como expliquei acima, o óxido de zinco pode deixar a pele esbranquiçada depois que você passa a pomada. Só que isso é simplesmente o produto sobre a pele, não é tratamento de manchas!

De acordo com esse vídeo do dermatologista Gustavo Borchardt, pode ser que, em caso de manchinhas mais superficiais, haja aparente melhoria pela renovação celular proporcionada pela Minancora. Veja a partir do minuto 7:33:

Contudo, se a sua preocupação é hiperpigmentação, hoje existem ingredientes muito mais interessantes para essa finalidade, como ácido azelaico, retinoides, alguns outros ácidos e vitamina C. E, claro, não adianta investir em nenhum deles sem levar o protetor solar a sério, como a gente sempre fala!

Minancora é boa para espinha?

Veja só: a indicação da marca não surgiu do nada! A ação antisséptica do cloreto de benzalcônio, junto com as propriedades do óxido de zinco e da cânfora, pode ajudar em algumas situações de espinhas e inflamações superficiais sim.

O problema – infelizmente – é que acne não é simplesmente uma questão de ter bactérias na pele. Ela envolve produção de sebo, obstrução dos poros, inflamação e outros fatores. Por isso, atualmente temos ativos muito mais específicos para tratar o problema, como ácido salicílico, ácido azelaico e retinoides.

Por isso, eu vejo a Minancora muito mais como um produto que pode ter alguma utilidade em uma situação pontual do que como um tratamento completo para quem sofre com acne, entende? Isso vale especialmente para quem tem espinhas frequentes, inflamadas ou que deixam marcas. Nesse caso, é muito mais interessante procurar uma rotina pensada para acne – e, dependendo da intensidade, conversar com um dermatologista!

Afinal, ainda vale a pena usar Minancora?

Minancora vale a pena

Sinceramente? Não acho que a pomada Minancora seja um produto ruim! Muito pelo contrário: a fórmula tem uma lógica bastante clara e seus ingredientes têm funções conhecidas. É fácil entender por quê ela ganhou fama ao longo de tantas décadas!

Quando a Minancora surgiu, a gente não tinha nem de longe a variedade de cosméticos e tratamentos dermatológicos que temos hoje. Atualmente, existem produtos formulados especificamente para acne, manchas, barreira cutânea, oleosidade… E, dentro de cada uma dessas categorias, ainda temos diferentes ingredientes e concentrações para escolher.

Por isso, acho mais justo dizer que a Minancora envelheceu bem, mas o mercado cosmético ao redor dela evoluiu muito! Ela continua sendo um clássico, continua tendo uma fórmula coerente e pode continuar fazendo sentido em determinadas situações. Só não precisamos mais enxergar aquela latinha como um produto que resolve qualquer coisa que apareça na pele, né?

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