Uma reportagem da revista Piauí revelou possíveis conexões entre Flávio Bolsonaro (PL), o empresário Willer Tomaz e a plataforma de apostas Best Bet. O caso envolve uma investigação da Polícia Federal que apura suspeitas de evasão de divisas e lavagem de dinheiro, além de movimentações bancárias.
Nesta terça-feira (20), a revista Piauí publicou uma reportagem que aponta possíveis conexões entre o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) e uma plataforma de apostas esportivas, as chamadas bets.
Segundo o veículo, o senador figurava como “usuário máster” de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. Willer Tomaz, advogado investigado em apurações que envolvem suspeitas de irregularidades financeiras, também estava cadastrado nessa condição. A Alcazar mantém vínculos empresariais com a Cathedral Holdings, empresa que controla a Best Bet, de acordo com a reportagem.
Diante dessas conexões, a Polícia Federal solicitou ao Supremo Tribunal Federal (STF) a abertura de um inquérito para apurar a suspeita de que Flávio seria sócio oculto da Best Bet. A plataforma operava em parceria com a Loterj, loteria estadual do Rio de Janeiro, durante a gestão de Cláudio Castro, aliado político do senador.
A situação também ganhou novos desdobramentos nesta terça-feira (20). Uma reportagem do UOL revelou que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro emitiu notas fiscais que somam R$ 13,7 milhões entre janeiro de 2023 e julho de 2026. Segundo o veículo, parte dos pagamentos foi direcionada a uma conta no Santander que, de acordo com a apuração, também estava vinculada ao senador e a Willer Tomaz. Os dois contestaram informações sobre o compartilhamento da conta.
As conexões entre Flávio e Tomaz, segundo a Piauí, não se limitariam à relação bancária. A revista relata que os dois teriam realizado viagens juntos e utilizado jatinhos em deslocamentos internacionais. A reportagem afirma que a Polícia Federal identificou movimentações financeiras e outros elementos durante uma apuração sigilosa. Os valores envolvidos não foram divulgados publicamente.
Em relatório obtido pela revista, os investigadores levantam a hipótese de que contas vinculadas a Tomaz funcionariam como um “ponto de concentração, circulação e redistribuição de recursos em favor de terceiros”. A hipótese faz parte da apuração e não representa, por si só, uma conclusão sobre a origem ou a destinação dos valores.

Conta bancária e viagem à Europa
A reportagem da Piauí também informa que Flávio deixou de constar como “usuário máster” da conta da Alcazar em 22 de maio de 2025, cerca de dois anos após a criação da empresa.
Naquela data, uma funcionária de Willer Tomaz, Fayla Zulmira Menezes, enviou ao Santander um pedido para excluir o senador dessa condição. Segundo a revista, o e-mail não apresentava uma justificativa para a solicitação.
Ainda de acordo com a reportagem, Flávio estava em Portugal com Tomaz naquele período. No dia seguinte, 23 de maio de 2025, os dois viajaram com suas respectivas famílias de Cascais, em Portugal, para Nice, na França. O deslocamento teria sido realizado em um jato contratado em nome da Cathedral.
A Piauí relata que, naquele período, a Best Bet já havia perdido o direito de operar nacionalmente. A empresa encerrou suas atividades em meados de 2025.
Disputa sobre a atuação da Best Bet
A trajetória da plataforma também é abordada pela revista. A Best Bet operava com autorização da Loterj, mas a atuação nacional de casas de apostas autorizadas apenas no âmbito estadual passou a ser alvo de disputas judiciais e regulatórias.
Em julho de 2024, o governo federal avançou na regulamentação do mercado de apostas esportivas on-line. No contexto dessas medidas, a União contestou a atuação nacional de empresas que possuíam autorização estadual.
Segundo a Piauí, a Loterj recorreu à Justiça para contestar as restrições e conseguiu uma liminar favorável no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). A disputa também chegou ao STF. De acordo com a revista, em janeiro de 2025, o ministro André Mendonça decidiu que a Best Bet não poderia operar nacionalmente, restringindo sua atuação ao Rio de Janeiro.
Na mesma época, segundo a reportagem, Willer Tomaz convidou os senadores Dr. Hiran, presidente da CPI das Bets, e Soraya Thronicke, relatora da comissão, para discutir a situação da Loterj em seu escritório, em Brasília. A presença do então governador Cláudio Castro também teria surpreendido os convidados. Hazenclever Cançado, então presidente da Loterj, teria participado da reunião por videochamada.
A revista também aponta que empresários do setor de apostas apoiam a candidatura presidencial de Flávio. Entre os nomes citados estão Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, ligado à 7 Games Bet, e Ernildo Júnior de Farias Santos, proprietário da Pix Bet. Segundo a publicação, esses empresários teriam interesse em mudanças nas regras que regulam o mercado de apostas no país caso o senador seja eleito.

O que dizem Flávio Bolsonaro e Willer Tomaz
Após a divulgação de informações sobre a conta bancária, Flávio Bolsonaro afirmou ao UOL que “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas”.
Tomaz também contestou as informações. Segundo as declarações reproduzidas nas reportagens, ele afirmou que a conta bancária “nunca lhe pertenceu” e que “jamais criou usuário em nome do senador Flávio Bolsonaro em qualquer plataforma”.
A Piauí informou que questionou Flávio sobre a relação com a Alcazar, uma possível participação na Best Bet e eventual acesso aos negócios da Cathedral, mas não obteve resposta a essas perguntas até a publicação da reportagem.
A revista também procurou Tomaz para tratar da conta bancária, dos vínculos contábeis entre a Cathedral e a Alcazar e da disputa judicial envolvendo a Best Bet, mas, segundo o veículo, não recebeu resposta.
A apuração sobre as possíveis conexões financeiras e empresariais segue sujeita à análise das autoridades. As suspeitas relatadas não constituem, por si só, prova de prática criminosa pelos envolvidos.
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