Mensagens extraídas pela Polícia Federal indicam que Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, recebia reportagens do Metrópoles antes da publicação e pedia alterações. Segundo o UOL, ao menos 14 matérias foram enviadas antecipadamente, 11 modificadas a pedido dele e duas publicadas por sua solicitação.
Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, recebia reportagens do portal Metrópoles antes da publicação e solicitava alterações nos textos, segundo mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) de seu celular. As informações foram divulgadas pelo UOL nesta quinta-feira (15). Os registros também indicam que a direção do veículo consultava o empresário sobre pautas e atendia a pedidos que poderiam favorecer os interesses dos negócios dele.
De acordo com um levantamento do UOL, pelo menos 14 reportagens foram enviadas antecipadamente a Vorcaro, e 11 passaram por mudanças após solicitações dele. As mensagens também apontam que duas matérias foram publicadas a pedido do ex-banqueiro.
A comunicação direta entre Vorcaro e Lilian Tahan, CEO do grupo Metrópoles, teria começado em 2024, mesmo ano em que o Banco Master fechou um contrato publicitário de R$ 20 milhões com o portal. Em abril de 2025, ao enviar um perfil sobre o empresário, Lilian escreveu: “Se houver alguma incorreção, me avise! Não publicarei sem conversarmos”.
Ao ser questionada pela publicação sobre o envio antecipado de reportagens, a executiva afirmou que consultar fontes sobre o conteúdo das matérias faz parte de sua prática profissional. “Checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresariais, da política e do Judiciário”, declarou.

Lilian também negou que o contrato publicitário do Master tivesse relação com a cobertura jornalística de interesse do banco. “Basta ver a quantidade de matérias publicadas pelo Metrópoles expondo a situação das empresas de Vorcaro, como Banco Master, Ambipar, Fictor, Oncoclínicas, entre outras”, afirmou ela.
A aproximação entre Vorcaro e o portal começou em maio de 2024, quando Guilherme Barros, assessor de imprensa do Banco Master, levou Lilian Tahan para um café com o então banqueiro. No dia seguinte, Barros comentou o encontro por mensagem: “A Lilian gostou muito de você. Foi muito bom ter colocado você em contato com Luiz Estevão. Eu tenho o contato dele, mas acho melhor que ela mesma faça essa ponte, concorda?”.
A referência era a Luiz Estevão, ex-senador e proprietário do Metrópoles. Condenado a 31 anos de prisão por desvio de recursos públicos, o empresário passou ao regime aberto em 2021, após cumprir parte da pena. Um mês depois da reunião, o Master pagou R$ 1 milhão ao portal. Em julho, acertou outros R$ 900 mil para financiar projetos de “educação financeira” de duas empresas do grupo: a seguradora Kovr e o banco digital Will.

Em novembro, Lilian encaminhou uma nova proposta comercial. Segundo Ana Matos, diretora de marketing do grupo Master, o valor acordado foi de R$ 20 milhões. “Está caro esse Metrópoles”, escreveu Ana em uma mensagem a Vorcaro. O então banqueiro respondeu: “A coisa mais importante da nossa vida é esse Metrópoles”.
Dois dias depois, ele avisou: “Dei o aval para a Lilian”. Em seguida, Ana perguntou: “O valor que fechamos com o Metrópoles, de R$ 20 milhões, eu pago todo pelo CNPJ do banco ou divido com a Kovr e o Will?”. As mensagens indicam que o Master quitou o valor em 2025, por meio de parcelas de R$ 5 milhões.

Vorcaro reclamou de reportagem e pediu mudanças
Em 2 de abril de 2025, Vorcaro questionou uma informação publicada pelo portal sobre uma suposta oferta de compra de ativos do Master por R$ 1. “A proposta de R$ 1 nunca existiu!”, escreveu o empresário. “Vamos retirar”, respondeu Lilian.
Naquele período, o banco já enfrentava dificuldades financeiras. Dias antes, o BRB, instituição estatal controlada pelo governo do Distrito Federal, havia anunciado a compra de 58% do capital do Master. A operação, apresentada como uma tentativa de salvamento, recebeu críticas e ainda dependia da aprovação do Banco Central (BC).
Em 9 de abril, Lilian avisou a Vorcaro que queria encaminhar um documento recebido pela equipe do Metrópoles. “Depois, se quiser, eu comento como chegou”, escreveu a executiva, que combinou o envio de uma cópia física. No dia seguinte, ela sugeriu uma reportagem comparativa sobre os balanços do Master e do BRB. “Me diga o que acha: um comparativo entre os balanços dos bancos. Ajuda ou atrapalha?”, perguntou.
“Pode ser bom! Eu conseguiria dar uma olhada antes para conferir os dados”, respondeu Vorcaro. “Claro!”, concordou Lilian. O texto foi publicado naquele mesmo dia, após o envio ao ex-banqueiro. Em maio, Lilian encaminhou a ele uma reportagem sobre a venda de ativos do Master ao BTG Pactual. Vorcaro pediu uma alteração específica: “Pode retirar a Hapvida do texto?”. A executiva aceitou.

Ex-banqueiro opinou sobre reportagens a respeito de diretor do Banco Central
As mensagens também mostram que Vorcaro interferiu no conteúdo de reportagens sobre Renato Gomes, diretor do Banco Central que analisava a compra do Master pelo BRB. Gomes se posicionou contra a operação, que não avançou, e o Master acabou submetido à liquidação extrajudicial.
Em agosto de 2025, Lilian enviou a Vorcaro uma entrevista com Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, que mencionava Gomes. O empresário sugeriu que o texto desse mais destaque a Campos Neto. “Acho que o texto está ótimo. Mas eu não falaria tanto do Renato, concentraria essa matéria no Roberto. Senão, perdemos o suspense da batida dele! Guardaria essa parte do texto sobre o Renato para a matéria dele!”, escreveu. O pedido foi atendido.
Dias depois, Lilian encaminhou um perfil do diretor, intitulado “Técnico ou político? Quem é Renato Gomes”. Vorcaro pediu a retirada de um trecho sobre a falência do banco e sugeriu acrescentar a informação de “que há uma divisão no Banco Central e Renato estaria contra” a operação.
O ex-banqueiro propôs ainda incluir “especulações de que, após seu mandato, estaria de malas prontas para um dos grandes bancos”. Segundo as mensagens, todas as solicitações foram atendidas. “Vamos publicar, ok?”, respondeu Lilian. No dia seguinte, a executiva enviou outra reportagem, desta vez sobre um projeto que permitiria ao Congresso demitir diretores do Banco Central. Vorcaro pediu a retirada do trecho final: “Eu tiraria a última frase”.



Questionada sobre quem sugeriu a reportagem sobre Gomes, Lilian afirmou que ele “se tornou uma figura relevante por ter se posicionado de forma contrária à aquisição do Master pelo BRB, lembrando que o BRB é o banco estatal de Brasília e que o assunto sempre foi de grande interesse para um veículo que cobre prioritariamente os temas da capital federal”.
Redução da cobertura sobre Ricardo Cappelli
Ainda em agosto de 2025, Vorcaro pediu a Lilian que reduzisse temporariamente a cobertura do Metrópoles sobre Ricardo Cappelli, pré-candidato da oposição ao governo do Distrito Federal que criticava a compra do Master pelo BRB. “Esse Cappelli, você consegue dar uma freada nesta semana? Depois ele volta!”, escreveu o ex-banqueiro. “Deixa comigo”, respondeu a diretora do portal.
Ao comentar o episódio, Lilian afirmou que Luiz Estevão “sempre foi um crítico ferrenho da compra do Master pelo BRB e, inclusive, forneceu a Cappelli várias análises sobre problemas identificados nos balanços do BRB que demonstravam a inviabilidade da operação”.
Em 17 de novembro de 2025, dia em que Vorcaro foi preso, Lilian enviou ao então banqueiro textos sobre a venda do Master à Fictor antes da publicação. Após atender aos pedidos dele e alterar o conteúdo, a executiva escreveu: “Publicada, hahaha”.


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