William Bonner revelou que percebeu uma mudança inesperada na reação do público após anunciar sua saída do “Jornal Nacional”. O jornalista contou como passou a ser abordado nas ruas e refletiu sobre os efeitos de quatro décadas no telejornalismo.
William Bonner revelou que passou a viver uma relação diferente com o público desde que anunciou sua saída do “Jornal Nacional”. Durante participação no videocast “Cá Entre Nós”, apresentado por Fátima Bernardes e pela filha do ex-casal, Beatriz Bonemer, nesta terça-feira (8), o atual apresentador do “Globo Repórter” contou que começou a receber mais demonstrações de carinho nas ruas e afirmou estar se sentindo “meio popstar” com a mudança.
Segundo Bonner, durante anos, quem gostava de seu trabalho costumava permanecer em silêncio, enquanto as abordagens que recebia pessoalmente partiam principalmente de pessoas que tinham críticas a ele.
“Durante um período longo e recente, eu diria que nos últimos dez ou 12 anos, o público que gostava de mim e o público para quem eu era ‘ok’ estavam meio quietos por aí. Só se manifestava o público que me detesta. Então, esses eram os que chegavam para mim na rua, abordavam, me xingavam das coisas mais incríveis, às vezes opostas, porque esses eram os que tinham o motivo para ir até mim falar alguma coisa”, relatou.
O cenário, de acordo com o apresentador, mudou quando ele anunciou que deixaria a bancada do “JN”, em setembro de 2025. A notícia teria feito com que uma parcela mais afetuosa do público passasse a demonstrar seus sentimentos. “A partir do momento em que eu anunciei que sairia, no dia 1º de setembro de 2025, houve uma mudança interessantíssima. Pessoas que gostam de mim e pessoas para quem eu sou ‘ok’ resolveram se manifestar: ‘Ah, que pena que você vai sair’; ‘Ah, puxa vida, eu gosto tanto de você’”, contou.
Bonner afirmou que essas demonstrações também mudaram a dinâmica das abordagens negativas que costumava enfrentar. “Se eu estou na rua e sou cercado por pessoas que trazem carinho para mim, isso vira uma vacina. As pessoas que me odeiam continuam me odiando, talvez até mais ainda, mas elas não se aproximam mais, porque fica muito estranho (…) pararam de me abordar”, explicou.

A experiência fez o jornalista rever até a percepção que tinha sobre a própria rejeição. Segundo ele, as críticas pareciam maiores justamente porque vinham de um grupo mais disposto a se manifestar. “Eu estou descobrindo agora que não era todo mundo que me odiava. Só que os que me odiavam eram bem vocais”, observou.
Durante a conversa, Bonner também refletiu sobre o impacto de quatro décadas dedicadas ao telejornalismo diário. O jornalista afirmou que, com o passar dos anos, sua imagem acabou se confundindo com a própria instituição para a qual trabalhava. “Eu acabei me transformando, exatamente por ficar 40 anos fazendo telejornalismo diário, em um avatar. Eu virei um avatar, eu não era mais uma pessoa”, declarou.
Para ele, o William fora das câmeras praticamente ficou restrito à convivência com pessoas próximas. “O William, ou o Júnior, como minhas irmãs me chamam e como a família me trata, essa pessoa meio que não existe fora do ambiente familiar”, explicou. A forte associação com a Globo, segundo Bonner, também fez com que se tornasse um alvo frequente de críticas direcionadas ao jornalismo. “Qualquer ataque que seja feito à imprensa — e ele é feito hoje mundialmente, não é só no Brasil —, eu era o alvo mais fácil”.
A decisão de deixar o “Jornal Nacional”, porém, não aconteceu de forma imediata. Bonner relatou que esperou até que seus sucessores estivessem preparados para assumir suas funções e admitiu que os últimos anos na bancada foram difíceis. “Esse perrengue que eu tive que enfrentar e os cinco anos que eu esperei para conseguir que formássemos sucessores para eu deixar o ‘Jornal Nacional’ foram um período extremamente difícil. Mas eu só aguentei porque, no fundo, eu gosto de fazer o que eu faço”, afirmou.

Nova fase no “Globo Repórter”
Na nova função como repórter do “Globo Repórter”, Bonner contou que recuperou uma sensação que já não experimentava com tanta frequência na antiga rotina. “O cérebro precisa de desafio e de dificuldade. Quando o cérebro percebe que o que eu faço não tem o menor risco de dar errado, quando a gente tem certeza de que aquilo que vai fazer vai dar certo, isso elimina a possibilidade de prazer”, avaliou.
O jornalista também comparou a mudança profissional com a decisão tomada por Fátima anos antes, quando ela deixou o “Jornal Nacional” para assumir novos projetos na Globo. “Fiquei muito mais tempo fazendo aquilo para hoje sair para fazer uma reportagem para o ‘Globo Repórter’ com borboleta no estômago, com friozinho na barriga, com esse nervosismo que você disse que tinha, mas que já passou”, contou.

Reflexão sobre o casamento com Fátima Bernardes
O bate-papo também passou pela vida pessoal do ex-casal. Fátima relembrou um comentário que ouviu repetidamente depois que os dois anunciaram, em 2016, o fim do casamento de 26 anos. “Quando nós nos separamos, as pessoas chegavam para mim e diziam: ‘Que pena que o casamento de vocês não deu certo’. Como você explicaria o sucesso que foi?”, questionou.
Bonner rejeitou a ideia de que uma separação seja sinônimo de fracasso. “Expliquei para os que ousaram dizer: ‘O casamento acabou, dizer que não deu certo é você que está dizendo’. Vamos conversar: nós passamos 26 anos juntos, tivemos três filhos que são pessoas maravilhosas, tivemos harmonia e respeito a vida inteira, até o fim do casamento. A forma como nos separamos foi respeitosa”, analisou.

O apresentador ainda questionou a expectativa de que uma relação precise continuar mesmo quando os planos do casal já não caminham na mesma direção. “Se você se casa com alguém, você vai até que a morte os separe? Mesmo que, em alguns momentos, os projetos não sejam mais os mesmos? É assim que funciona? Cada um vai ficar afundado em frustrações porque não tem mais os mesmos projetos e aquilo não pode acabar nunca?”, refletiu.
Quase dez anos após a separação, Bonner acredita que a convivência mantida pela família também ajudou a mudar a percepção de quem acompanhou o término. “São dez anos de as pessoas vendo o que aconteceu nas nossas vidas, nas vidas dos nossos filhos, e a maneira como a gente se relaciona até hoje. Alguém que, naquela época, tivesse pensado assim, hoje, talvez, pense de forma diferente, espero assim. Faz parte do aprendizado”, concluiu.
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