Kiko Pissolato se manifestou no Instagram e ao g1 sobre a prisão de Marco Furlan, acusado de estuprar uma criança de 5 anos. O ator relatou choque ao saber das acusações contra seu ex-colega de palco e defendeu que ele seja punido com o rigor da lei, além de pedir reflexão sobre a masculinidade.
Kiko Pissolato se manifestou sobre a prisão de Marco Furlan, acusado de estuprar uma criança de 5 anos. Além de conceder uma entrevista ao g1, o ator publicou um vídeo nas redes sociais em que falou sobre o choque ao descobrir as acusações contra o colega, com quem dividiu o palco por cerca de dez anos. No desabafo, ele afirmou que a imagem que tinha de Furlan “deixou de existir”, disse nunca ter percebido sinais que indicassem um crime dessa natureza e defendeu uma reflexão sobre a forma como os homens são educados.
No vídeo, Pissolato explicou que levou algum tempo para conseguir falar publicamente sobre o caso por causa da relação profissional que manteve com Marco Furlan ao longo de quase duas décadas. “Eu demorei um tempo para conseguir falar sobre esse assunto. Não porque eu não soubesse o que pensar, muito pelo contrário, mas porque eu conhecia essa pessoa. Eu trabalhei com ela em três peças de teatro, ao longo de quase 20 anos. Dividimos palco, camarim, festas, eventos. Não era um amigo íntimo, mas era alguém que dividiu a minha história, principalmente profissional, comigo”, afirmou.
Segundo o ator, o impacto da notícia foi semelhante a um processo de luto. “Quando a notícia veio, foi uma sensação estranha, quase como se fosse um luto. Mas depois eu entendi que não era um luto por uma pessoa, era o luto pela imagem que eu tinha dela”, declarou.
Ele contou que também se perguntou diversas vezes se havia deixado passar algum comportamento que pudesse indicar o que viria à tona. “Uma das perguntas que eu fiz para mim mesmo muitas vezes foi: ‘Você nunca percebeu nada?’. Minha resposta é não. E isso talvez seja uma das partes mais assustadoras dessa história toda”, afirmou.
Kiko acrescentou que casos como esse mostram que criminosos nem sempre apresentam características que permitam identificá-los. “A aparência de normalidade não é garantia de caráter”, refletiu.
Ao longo do vídeo, o ator aproveitou para ampliar a discussão e afirmou que o episódio o levou a refletir sobre a construção da masculinidade. “Eu cresci ouvindo um monte de ideias sobre o que significa ser homem. Que homem não chora, que resolve tudo na base da força, que precisa dominar, que não pode demonstrar fragilidade”, disse.
Segundo Pissolato, ele passou anos estudando feminismo e masculinidades para desconstruir esse modelo. “Eu percebi que todos nós somos educados dentro de uma cultura que muitas vezes associa a masculinidade ao poder, ao controle e à superioridade. E isso precisa mudar”, afirmou.
O ator também fez questão de destacar que comportamentos machistas não podem ser confundidos automaticamente com crimes dessa natureza, mas defendeu que o debate seja aprofundado. “A imensa maioria dos homens talvez nunca cometa esse tipo de crime. Mas também é verdade que a maioria esmagadora das pessoas que cometem esse tipo de crime são homens. Isso não significa que o problema seja ser homem, mas que tipo de homem nós estamos sendo”, declarou.
Na parte final do vídeo, Kiko afirmou que espera que Marco Furlan seja responsabilizado judicialmente. “Que ele seja punido com o maior rigor possível da lei para que sirva de exemplo. Para que a gente escute sempre as vítimas e para que a gente lute para acabar com esse tipo de comportamento”, concluiu.
Assista:
“A aparência de normalidade não é garantia de caráter.”
O ator Kiko Pissolato quebrou o silêncio em um vídeo nas redes sociais sobre a prisão de seu ex-colega Marco Furlan, acusado de estupro de vulnerável contra uma criança de 5 anos. pic.twitter.com/FA1AJXwRWx
— Lucia Regina Ferrari (@luciaferraris) August 6, 2026
Em entrevista exclusiva ao g1, Pissolato contou que estava montando o cenário de uma peça de teatro quando recebeu as primeiras notícias sobre o caso. “Eu estava no teatro, montando o cenário, quando minha esposa me encaminhou as primeiras notícias. Naquele momento, ainda eram informações iniciais, mas já foi o suficiente para me deixar completamente em choque”, relatou.
O ator explicou que, à medida que buscava mais informações, a sensação inicial deu lugar a um sentimento de perda. “Primeiro veio o espanto. Depois, uma sensação parecida com um luto. Não porque alguém tivesse morrido, mas porque a imagem que eu tinha daquela pessoa deixou de existir”, afirmou.
Segundo Kiko, ele e Marco Furlan se conheceram em 2007 durante a montagem de “Tristão e Isolda”, no Teatro do SESI, em São Paulo, sob direção de Vladimir Capella. Depois, voltaram a trabalhar juntos em “O Colecionador de Crepúsculos” e “O Meu Amigo Pintor”. O último encontro profissional entre eles aconteceu por volta de 2017.
Apesar da convivência de anos, ele ressaltou que a relação não era de amizade. “Não éramos amigos íntimos, nem tínhamos uma convivência cotidiana, mas havia uma relação cordial construída ao longo de muitos anos”, explicou.

Questionado pelo g1 se, olhando para trás, conseguia identificar algum comportamento que pudesse servir de alerta, Pissolato respondeu que não. “É inevitável que, depois de uma notícia como essa, a gente volte mentalmente à convivência e tente encontrar algum sinal que pudesse explicar o que aconteceu. Eu também fiz esse exercício. Mas, sendo muito honesto, eu não consigo dizer que havia comportamentos que indicassem um crime dessa natureza”, declarou.
Ele também revelou que não procurou Marco Furlan após as acusações e que não pretende fazê-lo. “Eu não conversei com ele e também não pretendo conversar. A sensação que tive foi a de que a pessoa que eu conhecia deixou de existir. Diante da gravidade do que aconteceu, eu realmente não vejo o que haveria para ser dito”, afirmou.
Por fim, o ator reforçou que sua intenção, tanto na entrevista quanto no vídeo, não era discutir apenas o caso de Marco Furlan, mas incentivar uma reflexão coletiva sobre prevenção da violência. “No fim das contas, eu não gravei aquele vídeo para falar sobre ele. Gravei porque acredito que, diante de uma tragédia como essa, a pergunta mais importante não é ‘como isso aconteceu com aquela pessoa?’, mas ‘o que nós podemos fazer para que isso aconteça cada vez menos?’. É essa conversa que eu acho que realmente importa”, concluiu.
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