Júlia Bossoni sofreu traumatismo cranioencefálico e sequelas neurológicas após andar na montanha-russa Montezum, do Hopi Hari, em Vinhedo (SP). Imagens do Fantástico exibidas no domingo (20) mostram a jovem antes e depois do percurso. O Ministério Público de SP investiga o caso com perícia.
Imagens de câmeras de segurança mostram os últimos momentos de Júlia Bossoni na montanha-russa Montezum, do Hopi Hari, em Vinhedo, no interior de São Paulo, antes e depois de um grave acidente. A jovem sofreu um traumatismo cranioencefálico durante o passeio, ficou 57 dias internada e, meses depois, ainda enfrenta sequelas físicas e neurológicas.
O caso é investigado pelo Ministério Público de São Paulo, que solicitou uma perícia na atração. As imagens foram divulgada spelo Fantástico, da TV Globo, neste domingo (20).
Júlia e o companheiro, João Pedro Bossoni, viajaram de Londrina, no Paraná, para visitar o parque em abril. Segundo a reportagem do Fantástico, os dois foram à Montezum duas vezes no mesmo dia. Na primeira, não houve intercorrências. Mais tarde, após receberem um acesso promocional, decidiram voltar à atração. “A gente conseguiu ainda pegar uma promoção e também ganhamos uma passagem VIP para a Montezum. E a gente foi a primeira vez, não teve problema”, contou João Pedro.
No momento do embarque, o casal chega a gravar um vídeo, mostrando os rostos “apreensivos”. Logo depois, câmeras de segurança do parque registraram este segundo embarque. Júlia aparece consciente durante a subida do carrinho, mas não há imagens do restante do percurso. Cerca de dois minutos depois, o veículo retornou à plataforma e ela estava desacordada e em convulsão.

Cerca de dois minutos depois, o veículo retornou à plataforma e ela estava desacordada e em convulsão. “Ela já estava inconsciente, já estava convulsionando e, nesse momento, você fica desesperado, não sabe o que fazer”, relatou João Pedro ao Fantástico.

Funcionários do parque prestaram atendimento e, seis minutos depois, Júlia foi retirada da atração em uma maca. Ela foi encaminhada para a Santa Casa de Vinhedo, onde deu entrada diretamente na UTI.
Hemorragia e cirurgia de emergência
Os primeiros exames apontaram uma hemorragia intracraniana e um grande edema cerebral. Diante da gravidade do quadro, Júlia precisou passar por uma cirurgia de emergência.
O neurocirurgião Victor Batistela explicou ao Fantástico que foi realizada uma craniectomia descompressiva, procedimento que consiste na retirada temporária de parte do crânio para permitir que o cérebro inchado tenha espaço. “Essa cirurgia visa à retirada de uma grande porção da calota craniana para permitir o cérebro fazer esse processo de inchaço”, explicou o especialista.
Júlia recebeu o diagnóstico de traumatismo cranioencefálico (TCE) e permaneceu 57 dias internada em Vinhedo. Segundo um laudo médico citado na reportagem, o trauma teria ocorrido por um mecanismo de contragolpe durante o passeio.
“Um movimento brusco de aceleração e desaceleração e rotação do crânio pode fazer a ruptura de vasos sanguíneos cerebrais, causando uma hemorragia intracraniana e levando a um edema cerebral, que foi o caso da Júlia em especial”, afirmou Batistela.
De acordo com João Pedro, a jovem perdeu parte dos movimentos e também passou a apresentar dificuldades na fala e alterações de memória. “Ela perdeu o movimento do lado esquerdo completamente. O braço e a perna, ela não movimenta. Ela tem dificuldade de fala, memórias turvas”, contou.

Família busca perícia
Após o acidente, a família de Júlia entrou na Justiça para pedir uma perícia que esclareça as circunstâncias do episódio. Cinco meses depois, a jovem segue em processo de reabilitação e já passou por sete cirurgias.
A mãe, Danielle Rimolli, contou que os cuidados envolvem diferentes tipos de terapia. “A gente conseguiu agora fisioterapia três vezes por dia, três vezes por semana. Aí divide com terapia ocupacional, divide com fono, que tem todo dia”, explicou.
João Pedro afirmou que a principal preocupação da família é a recuperação da jovem. “Minha única preocupação é ela estar bem. Ela voltar a ser independente, a ser feliz de novo, a sorrir, conseguir conversar, ser independente, ser forte, que nem ela sempre foi”, disse.
Outros casos envolvendo a Montezum
O caso de Júlia não é o único relato de lesão associado à atração. A reportagem do Fantástico também ouviu Nathalia Assenjo Motta, que sofreu uma lesão na região cervical após andar na Montezum em 2018. “Conforme a montanha-russa desceu e subiu para fazer a curva, o meu pescoço fez o mecanismo de chicote, deu aquele estalo. Meu corpo desligou totalmente”, relembrou.
Segundo o relato apresentado pelo programa, o deslocamento das vértebras exigiu a colocação de 12 pinos e duas hastes na região cervical. Nathalia recuperou os movimentos do corpo três dias depois, mas ficou com limitações no pescoço.
Ela recebeu uma indenização do Hopi Hari por danos materiais e afirma que ainda convive com dores e precisa de tratamento. “Fisioterapias, hidroterapia que eu tive que pagar particular, que o plano não cobre. Eu tenho essas dores absurdas e preciso tomar remédios fortíssimos”, afirmou.
Outro caso citado pelo Fantástico é o de Márcio, que ficou tetraplégico após um passeio na Montezum em 2014. Ele morreu em 2023, em decorrência de complicações de uma infecção urinária.
O advogado João Erhardt, que representou Márcio, afirmou que os documentos médicos apontavam uma relação entre o movimento sofrido na atração e a lesão. “Houve de fato o rompimento de duas vértebras, mas o problema neurológico que desenvolveu a tetraplegia, conforme consta do laudo, foi o movimento de chicote”, declarou.
Além desses casos, o Fantástico encontrou cerca de 40 registros, nos últimos dois anos, em uma plataforma de reclamações de consumidores, nos quais visitantes relatam dores ou lesões após utilizar a Montezum. Entre os relatos estão problemas no pescoço, lesões no joelho e fraturas nas costelas.

O que diz o Hopi Hari
Procurado, o Hopi Hari afirmou que a Montezum possui certificação internacional do grupo TÜV Nord e passa por inspeções anuais. O parque também declarou seguir as normas nacionais de segurança para equipamentos de parques de diversão.
Segundo a administração, os visitantes são informados, por meio de placas, avisos sonoros e orientações dos operadores, de que a atração é classificada como radical e possui restrições para pessoas com problemas na coluna, gestantes e portadores de determinadas condições clínicas.
O parque também citou um parecer do Ministério Público de São Paulo, emitido em agosto de 2026 após outro atendimento médico, no qual, segundo a empresa, não foi identificado risco coletivo relacionado à atração. O documento teria apontado a regularidade do funcionamento da Montezum e a existência de protocolos de manutenção e segurança.
A investigação aberta agora pelo MP para apurar o caso de Júlia é distinta dessa manifestação citada pelo parque e ainda está em andamento. O órgão solicitou uma perícia policial na montanha-russa para analisar as circunstâncias do episódio.
Sobre o caso de Júlia, o Hopi Hari afirmou que a jovem recebeu atendimento imediato seguindo os protocolos de segurança e que a direção acompanhou a internação. Segundo a empresa, as despesas durante o período em que ela permaneceu em Vinhedo foram custeadas pelo parque e um seguro foi disponibilizado à família.
Em relação aos casos de Nathalia e Márcio, o Hopi Hari afirmou que os episódios ocorreram antes de 2019, durante uma administração anterior.
Sobre as reclamações encontradas na plataforma de consumidores, a empresa classificou os registros como um número estatisticamente pequeno diante do total de visitantes da atração. O parque informou ainda que a Montezum passou por anúncio de reforma, prevista para o fim de 2026.
De acordo com o Hopi Hari, mais de 870 mil pessoas visitaram o parque desde janeiro deste ano e aproximadamente 470 mil passaram pela Montezum no período.
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